quinta-feira, 21 de julho de 2022

NOSSAS MUSAS

 

A turma de médicos de 1960 da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, era conhecida como a faculdade da Praia Vermelha e a Matriz, por ser a mais antiga do Rio.


Nossa turma, a maioria era de homens, mas o número de mulheres chamava atenção, numa prova que o curso tinha perdido o perfil de curso masculino.


Os alunos pertenciam praticamente a todos os estados do Brasil, pois naquela época existiam apenas vinte e sete escolas no território nacional, em sua maioria, federais.


Era considerada a melhor escola de medicina do pais, e seus professores pertenciam a elite da medicina.


Nosso professor de fisiologia, Thales Martins disputou o Prêmio Nobel de Medicina.


O de biofísica, Carlos Chagas Filho, foi um dos consultores científicos da Sua Santidade o Papa.


Muitos dos nossos professores foram ex-alunos da nossa escola, o que nos enchiam de orgulho.


Alunos bolsistas de quase todos os países da América do Sul e alguns europeus.


Os filhos e netos dos nossos grandes mestres, como Miguel Couto, eram nossos colegas de turma.


Personalidades como Noel Rosa (abandonou o curso após completar o segundo ano pela boemia), Ademar de Barros, estudaram na Matriz.


Muitos cuiabanos da minha geração estudaram na Praia Vermelha, além da sua excelência, era pública.


Ali foi também um grande laboratório social.


Os filhos dos professores e alunos cariocas faziam o “velho ginásio e científico”, no Colégio Pedro II, Santo Ignácio, Andrews, São José, São Zacarias e passavam direto no concurso do vestibular.


Os do interior eram obrigados, de um modo geral, a frequentarem bons cursinhos durante um ano, como o do Galotti, para enfrentarem o difícil e concorrido exame para realizarem os seus sonhos de serem médicos.


Os alunos que moravam no Rio faziam suas refeições em casa, e geralmente eram levados de automóveis para as aulas, ou caronas.


Os do interior, muito pobres, moravam na Casa do Estudante, nos fundos do prédio da faculdade.


Os remediados, como eu, moravam em vaga de quartos nas inúmeras pensões existentes na zona sul do Rio.


Outros se reuniam em “repúblicas de estudantes”, como a famosa da rua Santo Amaro na Glória e no Zacatecas, em Laranjeiras.


As refeições deste segundo grupo, de pobres e remediados, eram sempre no restaurante da faculdade, que ficava do lado esquerdo do prédio da faculdade.


Aos domingos pela manhã o almoço era no Calabouço, que atendia também estudantes carentes do ensino médio.


Os estudantes que moravam no Rio usavam também ônibus ou lotação, e eram geralmente aqueles que moravam na zona norte da cidade.


Os estudantes da casa dos estudantes, pensões, repúblicas e bandejão, usavam o bonde 4 como meio de transporte, e nós chamávamos com orgulho como “a turma do baixo clero”.


No vestibular três colegas passaram em primeiro lugar, sendo dois do baixo clero.


No tão esperado trote na avenida Rio Branco, com os calouros contentes de cabeças raspadas símbolo de vencedores, houve uma eleição para a escolha da rainha dos calouros.


Foram escolhidas pelo eleitorado, a maioria do baixo clero mais participativo, duas musas.


Por coincidência as duas moravam em Copacabana.


Uma morena e outra loira, da mesma idade (19 anos), e muito amigas, andando pelos corredores da faculdade sempre juntas.


Após uma eleição disputadíssima, venceu a morena Norminha, para rainha dos calouros 1955.


A princesa foi a loira Penha, sob vibrantes protestos dos seus fãs, que diziam que a eleição fora fraudada.


O pitoresco é que ambas não compareceram ao trote.


Norminha já nos deixou e a Penha, "irritantemente saudável", mora em uma cobertura na Vieira Souto, lê diariamente as minhas crônicas e comenta.


Continua bela!


Gabriel Novis Neves

13-07-2022









O "calouro" GABRIEL, no"trote" do vestibular










Restaurante CALABOUÇO, Rio de Janeiro








 



 







terça-feira, 19 de julho de 2022

Dr. ARTAXERXES NUNES DA CUNHA

 

Chegou para clinicar em Cuiabá um pouquinho depois de mim e era mato-grossense do sul.


Clínico geral, um dos últimos que conheci, extremamente minucioso nos exames dos seus pacientes.


Seu exame físico era geralmente com seus pacientes totalmente despidos de roupas, sendo temido por alguns.


Suas pastas com a anamnese eram super organizadas, escritas com caligrafia e gramáticas impecáveis, facilitando a leitura de todos que a manuseavam.


Durante muitos anos, com o seu inseparável colega Dr. Luís de Almeida Figueiredo, chefiaram a Clínica Médica do Hospital Geral.


Incontáveis vezes pedi o parecer do Dr. Artaxerxes, para as pacientes das enfermarias de obstetrícia e ginecologia.


Gostava muito de comparecer à sua salinha para esclarecer dúvidas dos seus pareceres médicos, que ficava no segundo andar do Hospital e Maternidade.


Dr. Artaxerxes, sempre com o estetoscópio no pescoço pendurado nos ombros, atendia enfermos em casa e no serviço médico da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, onde foi chefe por longos anos até se aposentar.


Tenho um irmão que por anos trabalhou na Assembleia, e até hoje sente saudades do seu médico que clinicava, não sentado em cadeiras vibradoras, com larga mesa e computador separando-o dos pacientes.


Fazia um exame clinico minucioso, que produzia um conforto em seu paciente, com receita quando necessária e raramente um pedido de exames complementares.


Nos dias atuais, infelizmente, a tecnologia substituiu o exame clínico por inúmeros e, as vezes inúteis exames complementares, afastando os pacientes pobres da saúde pública.


Dr. Artaxerxes não ficou rico exercendo a profissão de médico, pois não era seu propósito, dedicando o seu maior tempo ao atendimento dos carentes.


Homem extremamente educado, humano, inegociável em questões éticas e morais.


Gostava de se reunir à noite para conversar sentado em cadeira de balanço na calçada da casa da dona Dulce, líder política importante da Cuiabá antiga, na Praça Bispo Dom José.


Seus parceiros de papo eram os vizinhos da dona Dulce, como o professor Lídio Modesto, Hermínio Pastel, músico e funcionário público, pai do cantor Juarez Silva.


Luís Portela administrador público e, seu irmão Portela craque de futebol.


Benedito Pedro Dorileo, reitor da UFMT e, José de Carvalho, fundador do Clube Esportivo Dom Bosco.


Todos os políticos importantes como seu irmão Sebastião e Cleómenes Nunes da Cunha (primo), ambos deputados estaduais, frequentavam as conversas, na porta da casa da Dulce.


Ali no “rodão” de amigos, ele se desligava da medicina e tomava conhecimento de tudo que acontecia na cidade.


Foi o último médico do meu pai e, o atendia em casa, sem nunca ter cobrado honorários médicos.


A família Novis Neves tem imensa gratidão ao médico Dr. Artaxerxes, pai do nosso querido editor do blog do Bar do Bugre, Dr. João Nunes da Cunha Neto.


Gabriel Novis Neves

 21-06-2022


N.E.: Dr. Artaxerxes Nunes da Cunha é Patrono da cadeira n. 6 da Academia de Medicina de Mato Grosso. Formou-se médico pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro no ano de 1954.

(Atualmente, é a Escola de Medicina e Cirurgia da UNIRIO. Fundada em 10 de abril de 1912, a EMC é a segunda faculdade de medicina mais antiga do Rio de Janeiro e uma das mais tradicionais do Brasil, fazendo parte da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) desde 1979.)






MÉDICO DO FLAMENGO


Dos meus colegas quatro seguiram carreiras pouco habituais.


Dois se tornaram cientistas pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz em Manguinhos, no Rio de Janeiro.


Luiz Fernando Rocha Ferreira da Silva (também poeta) e Sérgio Gomes Coutinho, por anos estagiaram pelos principais Centros de Pesquisas dos Estado Unidos e Europa.


Professores da Escola de Saúde Pública da FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) e membros da Academia Brasileira de Medicina.


O Brito, colega do CPOR, se especializou em medicina aeronáutica.


Encontrei-o por acaso no salão de embarque do Aeroporto de Brasília quando me disse que era chefe do serviço médico da Aviação Civil Brasileira.


O mais conhecido foi o italiano naturalizado brasileiro Giussepe Taranto, que praticou durante toda a sua vida, medicina esportiva.


Foi estagiário do Clube de Regatas do Flamengo, chefe do serviço médico do clube, durante o seu período de Ouro (1970-1980).


Conheceu todo Brasil, países das Américas e Europa.


Também alguns países Africanos e Asiáticos.


Nos jogos do Flamengo ficava no banco do técnico e jogadores reservas.


Quando um jogador se machucava era ele quem decidia se o jogador continuava em campo ou seria substituído.


O Flamengo veio à Cuiabá jogar pelo campeonato brasileiro da época.


Era um domingo pela manhã quando recebi uma chamada telefônica.


Era do Taranto.


Ele sabia que eu era cuiabano, morava aqui e era reitor.


Disse que estava hospedado no Hotel Fenícia com a delegação do Flamengo e que gostaria de me dar um abraço.


Perguntou se eu tinha filhos menores.


Diante da minha resposta, perguntou se eles eram torcedores do Flamengo e se eles gostariam de conhecer o Zico, em pleno apogeu da fama de ídolo de futebol de um time popular.


Ele sabia que eu não era Flamengo.


Coloquei os meus dois filhos no carro.


Em poucos minutos estava estacionando na porta do Hotel dos Hadads, cheio de seguranças.


Cheguei na recepção e pedi que chamassem o Dr. Taranto.


Minutos depois estava abraçando o meu colega, cujo último contato foi no dia 15 de dezembro de 1960, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, quando graduamos em medicina pela UB.


Conversou com os meus garotos e disse que os levariam até o quarto do Zico, que acabara de acordar às 11 h da manhã.


Pegamos o elevador e paramos no andar onde estava o ídolo.


Taranto abriu a porta do quarto, que não estava fechada com chave.


O Zico de calção e sem camisa tinha acabado de tomar o café e estava sentado na cama.


Ele mal olhou para mim e os meninos e, com desdém, a pedido do seu médico, autografou as duas camisas do Flamengo.


Zico foi um craque de sucesso no Maracanã.


Participou de três Copas do Mundo (1978-1982- 1986) e nunca foi campeão, nem eleito o melhor jogador do mundo, mesmo tendo jogado na Itália.


Encerrou a sua carreira de jogador de futebol no Japão.


Fracassou como técnico de futebol na Ásia, e até hoje é funcionário de um time no Japão.


Anos depois fui jantar no antigo restaurante Getúlio.


No calçadão eram colocadas mesas que atendiam fregueses de petiscos e cerveja.


Tinha acabado de sentar em uma mesa com a minha mulher quando o maitre veio me dizer que o Zico estava do lado de fora, provavelmente com o seu empresário.


Me indagou se não gostaria de ir até lá para cumprimenta-lo e lhe pedir autógrafos.


Agradeci a gentileza e preferi saborear o pacu cuiabano.


Gabriel Novis Neves

25-06-2022






segunda-feira, 18 de julho de 2022

SEXTA GERAÇÃO DE MÉDICOS NOVIS DE CUIABÁ

 

A família de médicos Novis começou em 1833, quando José Francisco Novis casou-se com uma senhora já viúva - D. Maria Luiza Corrêa.


Dele nasceram três filhos, que foram os primeiros Novis nascidos no Brasil.


Aristides Novis, Augusto Novis e Francisco José Novis.


Aristides Novis não se casou e gerenciou os negócios da família.


Augusto Novis, estudou medicina e foi quem perpetuou o nome da família, já que o caçula Francisco faleceu solteiro, com 25 anos de idade.


Augusto Novis nasceu em Salvador em 1837 e diplomou-se em medicina, na Bahia em 1855, após defender a tese sobre o tema: “Qual o melhor meio da cura da tísica pulmonar? ”


No ano seguinte, ingressou na Marinha Imperial, sendo designado para servir na flotilha de Mato Grosso, cuja base naval era Cuiabá.


Aqui chegou após mais de dois meses de longa viagem, sendo seu percurso navegando pelo litoral sul do Brasil até a bacia do Prata e dali subindo o rio Paraguai em direção a Mato Grosso.


Nessa época, a província de Mato Grosso constituía-se numa imensa área territorial de pouco mais de 50 mil habitantes e extensa fronteira de quatrocentas léguas (1680 km).


A assistência médica era precária e os poucos médicos disponíveis geralmente faziam parte do Corpo de Imperiais Marinheiros ou do Corpo de Saúde do Exército.


Ao atracarem no porto de Cuiabá os navios da Marinha Imperial, era comum que a elite da província recepcionasse os recém-chegados com grandes festejos.


Naquela oportunidade as comemorações seriam na residência do Dr. José Augusto da Costa Leite Falcão, tendo como anfitriã sua esposa D. Constança Carolina Gaudie Leite.


Ciente dos costumes da terra e informado da recepção, o Dr. Augusto Novis se fez presente na festa, onde conheceu uma jovem prendada e culta que não havia completado seus 17 anos, uma das filhas do casal e pela qual se apaixonou à primeira vista.


Seu nome era Maria da Glória Gaudie Leite que trazia o apelido carinhoso de Nharinha.


Do namoro ao noivado e casamento, tudo foi como num piscar de olhos.


Em 4 de março de 1862, estava consumada a união do casal Leite Novis.


Descendentes do Dr. Augusto Novis e Maria da Glória Leite Novis: Alfredo Novis, Américo Novis, Amada Novis, Arnaldo Novis, Constança Novis, Alberto Novis, Cordolina Novis, Arthur Novis, Achilles Novis, Corina Novis, Aristides Novis, Amarílio Novis.


Todos os homens têm o nome iniciado pela letra A e as mulheres com a letra C.


Dr. Augusto Novis é homenageado em Cuiabá, pela Academia de Medicina de Mato Grosso, sendo Patrono da Cadeira nº 7 e ocupada pelo cardiologista Dr.José Almir Adena.


Dr. Alberto Novis era médico, filho de Dr. Augusto Novis, médico.


Formou em medicina na Bahia em1898 e apresentou a sua tese: “Diagnóstico da gravidez sob o ponto de vista Médico Legal”.


Foi citado em livros de renomados mestres como Fernando Magalhães, Jorge Rezende, Afonso Henrique Furtado, entre outros.


Retornou à Cuiabá e se casou com Antonieta Correa de Almeida (Tutica).


Foi deputado estadual (1908-1912), quando começou a perder a audição.


Após percorrer clínicas na Europa, em 1913, ficou gerenciando indústrias do seu sogro.


Mais tarde fez um curso de especialização no Rio de Janeiro, e se tornou o 1º otorrino de Cuiabá.


Teve 7 filhas e um homem, que estudou medicina, e se formou na faculdade de medicina da Bahia.


Essa deliciosa história nos foi contada por Pedro Novis Neves, meu irmão, em seu livro “Raízes do Passado”.


Dr. Oswaldo Novis, filho único do Dr. Alberto Novis, foi sanitarista exercendo a sua profissão no Ministério da Saúde, onde por diversas vezes trabalhou em Cuiabá.


Casado não deixou descendentes.


Dr. Alberto Novis é lembrado em Cuiabá emprestando o seu nome a uma minúscula praça na entrada do Beco do Candeeiro.


Também como Patrono da cadeira nº 4 da Academia de Medicina de Mato Grosso, ocupada pelo seu neto Dr. Gabriel Novis Neves.


Aracy foi a 2ª filha do casal Alberto Novis e foi casada com Deodato Gomes Monteiro.


Teve um filho médico Dr. João Novis, e neto médico.


Irene Novis foi a 6ª filha do Dr. Alberto Novis e Tutica.


Casou-se com o comerciante Olyntho Neves (Bugre do Bar) e teve 9 filhos, cinco mulheres e 4 homens, constituindo os “noves neves”, como a minha mãe dizia, iniciando a dinastia dos médicos Novis Neves, em Cuiabá.


O primogênito Gabriel e o 4º Inon, estudaram medicina no Rio e retornaram casados para cá.


Gabriel com a Regina Pia Padilla de Borbon e Inon com Gelza Nery Pereira, onde exerceram as suas profissões até suas aposentadorias.


O primeiro é viúvo, está com 87 anos, tem 1 filha e 2 filhos, 5 netas e 1 neto, 2 bisnetas e 2 bisnetos.


O Inon tem 2 filhos, sendo que o mais velho, Athos Otávio é médico e mora em Niterói, exercendo sua especialidade no Rio e Niterói.


Gabriel tem um filho médico Fernando Gabriel, exercendo a sua profissão em Cuiabá.


Casado com Ana Thereza Sabóia Campos, tem um filho concluindo Direito em São Paulo e uma filha Nathália, médica formada em Cuiabá e fazendo o 2º ano de Residência Médica na UFMT.


Yara Novis, a filha mais velha de Irene e Bugre, é casada com o médico Édio Lotufo.


O casal tem dois filhos médicos, Silbene e Marcelo Lotufo.


Augusto Novis, Alberto Novis, Oswaldo Novis, Gabriel e Inon Novis, Silbene e Marcelo, Fernando Gabriel, Athos Otávio e Natália Novis, completam a 6ª geração de médicos com a mesma genética.


Há estudantes de medicina, chegando à sétima geração!


Gabriel Novis Neves 

14-07-2022



Dr. ALBERTO NOVIS 


Dr. OSWALDO NOVIS


Dr. JOÃO NOVIS

Dr. GABRIEL NOVIS NEVES, FERNANDO NOVIS NEVES E NATHÁLIA NOVIS 


Dr. INON NOVIS NEVES 


Dr. ÉDIO LOTUFO, SILBENE E MARCELO NOVIS LOTUFO


Dr. ATHOS OTÁVIO NOVIS 


quinta-feira, 14 de julho de 2022

OS MÉDICOS DA MINHA FAMÍLIA


Além do meu avô Alberto Novis, que era uma espécie de Pronto Atendimento, citarei os outros que cuidaram dos meus pais e filhos quando crianças.


Embora tivesse nascido em casa pelas mãos do Dr. Antônio de Pinho Maciel Epaminondas, a primeira lembrança que guardo do médico da minha família foi do meu avô.


Primeiro, tratando do meu irmão Inon de meses de idade, quando recomendou aos meus pais a mudança temporária para sua casa.


A enfermidade que o acometera era grave e necessitava de alimentação diária com leite de vaca, que criava no quintal da sua casa.


Foi nesse período que com seis anos de idade aprendi jogar xadrez, bem antes de ser alfabetizado.


Meu irmão ficou curado e nós voltamos para a nossa casa da rua de Baixo.


Depois ele tratou de uma grave infeção no calcanhar por perfuração de prego, do menino que meus pais criaram - o abcesso que se formou com osteomielite foi aberto, com limpeza de material ósseo na Santa Casa.


Na época ainda não existia antibiótico em Cuiabá para tratamento das infecções, e ele ficou com sequelas.


Dr.Epaminondas foi o médico mais presente e atendia a todos da minha casa.


Fazia visitas diárias para acompanhar a evolução da doença, aplicava injeções intramusculares, quando necessárias.


Ele tinha um estojo de injeção em metal, com seringas e agulhas para esterilizar, e aplicar os medicamentos, geralmente intramusculares.


Fez todos os partos da minha mãe em casa, com exceção da caçula por motivo de viagem.


Ela nasceu com o meu pai, logo chegando o Dr. Luís Alves Corrêa para dar assistência a mãe e neném.


Antes o meu pai já havia esterilizado a água para o banho do recém-nascido e preparado no quintal o buraco para enterrar a placenta.


Depois que o Dr. Epaminondas abandonou a profissão, meu pai foi operado de próstata com sucesso na Santa Casa da Misericórdia pelo recém-chegado urologista, dr. Emanuel Figueiredo.


Quem cuidou do meu pai nos últimos anos de vida foi o clínico geral Dr. Artaxerxes Nunes da Cunha.


Já a minha mãe, que veio a falecer após vinte e quatro anos, teve como médico geral seu filho mais velho.


Antes fez um implante de marca-passo, peito aberto, no extinto Hospital Santa Cruz, feito pelo cirurgião cardíaco Dr.Ronaldo Fontes.


Assim eram os médicos de família de bem antigamente, substituídos pelos especialistas como urologistas, cirurgiões cardíacos e tantos outros.


Atualmente possuo, cardiologista de arritmias, de dopler do coração, de implante de marca-passo, endocrinologista, pneumologista, infectologista, imunologista, neurologista, psiquiatra, ortopedista, urologista, dermatologista, gastroenterologista, oftalmologista, ultrassonografista de abdômen, de dopler de carótidas, e dopler transesofageano.


Aprendi na faculdade um velho ditado que diz o seguinte:


“Quem tem um médico tem um médico; quem tem dois tem meio médico; quem tem mais de dois não tem nenhum”.


Gabriel Novis Neves

22-06-2022


Dr. Alberto Novis, meu avô


Dr. Epaminondas, o médico da família e seu filho Dr. Paulo Epaminondas





Dr. Ronando Fontes, cirurgião cardíaco que implantou o marcapasso em minha mãe






Dr. Inon Novis Neves, meu irmão


quarta-feira, 13 de julho de 2022

MEUS COLEGAS DE MEDICINA DA TURMA DE 1960


Éramos apenas três cuiabanos da turma de médicos de 1960 da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil.


Pela ordem de idade: Marcondes Pouso Silveira, Benedito Canavarros e Gabriel Novis Neves.


Canavarros foi meu colega no ginásio do Colégio dos Padres e Colégio Estadual.


Marcondes, um ano mais velho que o Canavarros e este um no ano mais que eu, sempre foi aluno do Colégio Estadual.


Marcondes se preparou para cursar engenharia civil, pois era excelente em matemática, e o Canavarros, não sei porquê fez teste para a Marinha Brasileira, sendo reprovado em saúde.


Aos 16 anos de idade precisava usar óculos de grau, o que não era permitido para um aspirante da marinha.


Eu por total inabilidade com a matemática, ciências sociais e artes, fiquei com a opção onde fui criado, que era a casa do meu avô médico.


Bem que gostaria de ter ficado trabalhando com o meu pai, mas este me expulsou do bar, dizendo lá não ser vida para mim.


Chegando ao Rio, Marcondes foi para uma pensão no bairro das Laranjeiras, levado por Moacyr de Freitas e Édio Lotufo, no famoso edifício Zacatecas.


Canavarros foi morar com o seu irmão Arari, que estava quase concluindo o curso de medicina, em uma pensão em Copacabana.


Eu para a pensão da dona Irene, de Corumbá, na Praia de Botafogo, no quarto de Carlos Eduardo Epaminondas.


Prestamos o vestibular de medicina da Praia Vermelha, e em março de 1955 iniciamos as aulas do básico.


Marcondes chegou a morar comigo na rua Paissandu e Senador Vergueiro, onde Canavarros passava temporadas.


As refeições eram sempre no restaurante da faculdade.


Os almoços dos domingos e feriados poderiam ser feitos no restaurante estudantil do Calabouço, bem perto do Aeroporto Santos Dumont.


Como eu tinha muitos parentes no Rio, tanto por parte do meu pai como da minha mãe, nessas datas filava o almoço, e muitas vezes o lanche de jantar, na casa deles.


Canavarros namorava uma cuiabana aluna do curso de educação física da UB, e logo após a conclusão do curso retornou para Cuiabá casando-se com ela.


Dos seus quatro filhos, o único homem é o Dr. Juliano Canavarros.


Marcondes foi o primeiro a retornar e casou-se com uma cuiabana, e foi premiado com um casal de filhos.


Depois de três anos e meio de concluído o curso, voltei para Cuiabá casado com uma argentina criada no Rio de Janeiro.


De três filhos, um é médico, com filha médica.


Construímos nossas carreiras profissionais na Maternidade e Hospital Geral, hoje Hospital Geral Universitário.


Canavarros foi exímio cirurgião geral com especialidade em cirurgia torácica, obstetrícia e ginecologia.


Marcondes o craque em cirurgia por via baixa e obstetrícia, estudioso de endometriose e tratamento.


Eu um paciente parteiro de parto normal, que aplicava fórceps de alívio, que ganhei do Dr. Epaminondas.


Ginecologista, implantei um consultório de terapia visual na Clínica Femina.


Também o único a seguir a carreira do magistério superior.


Marcondes e Canavarros, durante os anos todo de intensa atividade médica, mesmo com o surgimento dos primeiros hospitais privados, jamais deixaram de atender os seus pacientes no Hospital Geral e Maternidade.


Com a inauguração da Femina, transferi o meu consultório para lá, onde passei a atender minhas clientes.


Canavarros foi o primeiro a nos deixar, e no ano passado o Marcondes.


Sou extremamente grato a esses colegas de turma, que muito me ajudaram quando cheguei em Cuiabá.


Gabriel Novis Neves

23-06-2022





segunda-feira, 11 de julho de 2022

INSÔNIA OU PESADELO


Difícil escolher qual o pior deles, se a insônia ou o pesadelo.


Nunca tive insônias, pois faço uso atualmente, de ansiolíticos ou hipnóticos para preveni-las.


Os pesadelos surgiram com a idade avançada, e o pior é que parece que alguns remédios para combaterem as insônias causam esse efeito colateral.


Sempre fui considerado bom de cama.


Repousava em beliche, sofá ou cadeira espreguiçadeira mesmo por poucas horas, e acordava descansado sem sonhar.


Dormia no plantão da maternidade, mesmo sendo acordado com frequência para atender as pacientes de obstetrícia, já que os bebês têm predileção para nascerem de madrugada.


Quanta madrugada em sono profundo, eu fui despertado para um atendimento.


Jogava água fria no rosto e, em poucos minutos, estava na sala de partos, ou centro cirúrgico.


Mãe e recém-nato no quarto, voltava para casa e, continuava dormindo o sono gostoso e recuperador.


Muitas vezes a minha mulher nem notava a minha ausência, pois despertávamos assim como havíamos deitados na noite anterior.


Agora, com 87 anos, está uma chatice dormir, pois sei que irei enfrentar pesadelos.


Mesmo acordando uma ou duas vezes de madrugada, me levanto, vou ao banheiro, tomo um gole de água e logo volto a dormir.


Durmo sempre em torno das nove da noite, com sono natural, que me impede, inclusive de assistir aos jogos pela televisão.


Os pesadelos da etapa inicial continuam, podendo ser os mesmos ou surgirem novos, até o meu despertar espontâneo às sete da manhã.


Resultado, acordo com sono e se não brigar com o meu corpo para o café e ida para o escritório, fico rolando na cama sonolento, podendo ter pesadelos até chegar o almoço.


Só me sinto “engrenado”, quando termino a sesta e tomo uma xícara de café preto.


Mas aí o dia já está terminando, e tudo se reinicia de novo.


Já a insônia enfrentada galhardamente, nos conduz facilmente a trocar o dia pela noite, que é para mim um luxo inviável.


Na prática esse problema só se resolverá, como os outros que um velho tem:


Remoçar trinta anos que tudo isso acaba.


Gabriel Novis Neves

10-07-2022