quarta-feira, 30 de março de 2011

FILA

Leio na revista Veja, de 23 de março de 2011, na página 10, uma notícia que me chamou a atenção como médico e conhecedor do funcionamento do SUS.

Todo o povo brasileiro sabe que, o teoricamente, fantástico SUS, na realidade não funciona.

Tanto é verdade, que nenhum defensor do SUS, principalmente os políticos de Brasília e dos Estados e integrantes dos outros poderes, jamais procuraram o SUS, nem para um simples curativo.

O sucateamento do SUS, que é o plano de saúde de todos os cidadãos brasileiros, só é procurado pelos pobres e miseráveis.

Repito, o problema da saúde é nacional, e o próprio governo Federal chuta a Constituição Brasileira - “A saúde é um direito de todos e um dever do Estado.”

Há um ano trocamos o governador de Mato Grosso, com a saída do titular para assumir uma carreira solo, bem distante dos nossos problemas.

O novo governador interino, em plena campanha para a reeleição, foi obrigado a engolir cobras e lagartos. Tudo estava perfeito e funcionando muito bem em nosso Estado.

Algumas pequenas trocas foram efetuadas visando sempre o ganho político.

Convida para o cargo de Secretário de Saúde um dos médicos mais conceituados de Cuiabá, e reconhecido nacionalmente como um bom gestor em saúde.

No dia da posse, promete implantar o Programa Fila Zero para cirurgias eletivas. Tínhamos à época um numero vergonhoso de pacientes, numa fila que não andava.

Sabem como se encontra esse programa? O Secretário de Saúde não ficou um mês no posto, pedindo para sair sem dizer uma palavra de público.

Assumiu o seu lugar um bom gestor, não médico, e sem poder político.

A Fila do “Programa Fila Zero” para cirurgia proliferou de tal monta, que hoje temos 10 mil infelizes, aguardando por uma cirurgia eletiva.

Há quase três meses, o secretário é um médico, com carteirinha de deputado Federal.

Político experiente, o nosso colega secretário logo fez o diagnostico da saúde pública em nosso Estado. Começou a denunciar as coisas mal feitas nos últimos oito anos.

Foi lembrado que não poderia fazer isso, pois afinal era um governo de continuação em que todas as áreas da administração foram bem atendidas.

Nosso secretário que é médico legista do Estado fez a verificação de óbito no cadáver da nossa saúde.

Causa mortis: falência múltipla dos serviços públicos.

Com essa informação privilegiada, não seguiu o exemplo dos outros seus três colegas, que somando os seus mandatos, não conseguiram ficar dez meses no cargo.

Encontrou uma ótima saída política: jogar nas costas da Organizações Sociais (OSs), a responsabilidade sobre a gestão da saúde em MT.

Essa é uma pequena fotografia da saúde no Brasil.

Transcrevo a matéria da Veja: “Uma mulher de 38 anos, no início de abril vai se deitar em uma mesa cirúrgica para se submeter a um procedimento que transformará o seu corpo. De lá, ela sairá sem útero, ovários e trompas. Em data ainda a ser definida, passará pela extração das mamas. As cirurgias serão todas custeadas pelo SUS”.

Longe de mim a intolerância ou o preconceito. A medicina existe para minorar o sofrimento humano, tanto orgânico, quanto emocional, e a Constituição Brasileira garante a todos o tratamento pelo SUS.

Causa estranheza que uma cirurgia complexa para a retirada de órgãos sem nenhuma patologia gerando risco de morte fure a fila, e um portador de câncer do pulmão, fique meses na fila para fazer uma simples broncoscopia, para com o resultado histológico, iniciar a desesperada luta pela vida.

Todos os pacientes têm os mesmos direitos perante a Constituição. A única função do médico é disciplinar o atendimento.

Se, hipoteticamente, tivesse uma única vaga para cirurgia, diante desses dois casos, daria oportunidade ao paciente com câncer de pulmão.

Não seria notícia na Veja.

Gabriel Novis Neves

25-03-2011

* Publicado simultaneamente no www.bar-do-bugre.blogspot.com

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Notícia

Chego para o almoço e a minha secretária me diz para ligar com urgência para um colega de infância.

Antes mesmo de me desfazer do material de consultório - maleta com aparelho de pressão, estetoscópio, termômetro e os mais diferenciados blocos de receituários, moderna exigência do Ministério da Saúde, visando à melhoria do atendimento médico (!), - entro em contato com o colega pelo celular.

Ele atende ao chamado, e eu logo pergunto: “qual o problema?” Explica-me:

- Fui ao hospital, como faço há cinquenta anos.

Na minha mesa um envelope. Abro.

Leio a notícia da minha dispensa, com a frieza de uma geladeira de necrotério.

Procuro o setor de pessoal para saber a partir de quando não precisaria mais voltar ao hospital.

A resposta foi a mais curta possível – “a partir deste momento”.

Retornei para casa não acreditando no dramático final de um casamento com bodas de ouro.

Pedi à minha mulher que lesse a carta.

Em silêncio me devolveu, e sugeriu que eu telefonasse para você.

Ouvi o desabafo do colega sem interrompê-lo. Entendi o seu desânimo. Respirei fundo e lhe disse:

- Caro amigo do Grupo Escolar, Colégio dos Padres, Colégio Estadual, Anglo Americano do Rio, pensão, cursinho pré-vestibular, Praia Vermelha, e, Hospital Geral.

Há uma diferença entre nós, com um pequeno detalhe.

No início das nossas vidas profissionais, tivemos envolvências também, fora da medicina.

Você, com os aviões, na mais ampla compreensão.

Eu, com as crianças, adolescentes e jovens. Durante longos anos fui secretário de educação do Estado, e reitor-fundador da nossa UFMT (1968-1982).

Ele ouvia também sem me interromper. Continuei:

- Aprendi muito com as crianças e jovens.

O resultado vem com o passar dos anos.

Muitos ensinamentos ficaram com uma ponta solta, que só o tempo nos mostrou como amarrá-la.

Dei nó em muitos pontos soltos, que aprendi quando trabalhei com os jovens - nos chamados anos de chumbo.

Um alerta que me tem sido muito útil, vem daquela inquieta geração: “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

Do outro lado da linha, ouvi algo parecido com um sorriso. Finalizei dizendo:

- Há dois anos, segui a lição dos jovens de 1968.

Fiz acontecer. Não esperei que acontecesse.

Dessa forma, acredito, evitei sentir o devastador sentimento da mágoa. Mágoa provocada pela ingratidão.

Por essas e outras - que a vida nos apronta - é que sustento a tese de que, para não nos deixarmos magoar, devemos acreditar e confiar, somente nas crianças e nos jovens.

Você confiou muito na tripulação do hospital, esquecendo-se que ela é composta por adultos.


Gabriel Novis Neves

06-02-2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

INTERPRETAÇÃO

Um dos fundadores da Universidade da Selva sofreu, há três anos, um sério acidente vascular hemorrágico (AVCH). Frequentou hospitais, UTIs e serviços de recuperação.

Enviou-me uma carta escrita a mão, pois mora em Friburgo e ficou sem computador.

Na carta ele fala de suas observações sobre o AVC e pede-me que a encaminhe para a Academia de Medicina de Mato Grosso.

Resolvi socializar a visão de um paciente leigo sobre a doença da moda - o AVC. Eis um trecho da carta:

“Depois de três anos de experiência médico-hospitalar, após sofrer um AVC em Nova Friburgo, onde morei, em agosto/setembro de 2009, cheguei à seguinte conclusão: O AVC não é uma doença, mas um conceito técnico.

E não tem, no sentido exato da palavra, cura; o tratamento se centra na correção de sequelas, ou seja, nas consequências, não na causa.

Cheguei a tomar 27 comprimidos por dia, nenhum destinado ao cérebro danificado pela hemorragia”.

Ele continua dizendo: “O cérebro não tem como ser alcançado por quaisquer medicamentos; no caso, apenas a fisioterapia alcança as sequelas, no meu caso a hemiplegia.

O fundamento, o horizonte da questão é que a medicina no início do século XXI deixou de ser a arte de curar, com objetivo de preservar e recuperar a saúde humana.

Tornou-se a Ciência Médica com obrigações básicas com o cientificismo e o academicismo”.

“Os médicos das presentes gerações estão desorientados sobre o que é real e o que é técnico ou acadêmico.

Os físicos enfrentaram o mesmo dilema na primeira metade do século XX. Não tinham certeza se um fenômeno natural era real ou apenas uma equação matemática”.

“Assim, estou executando uma estratégia ANTIAVC.

Reduzir as sequelas para voltar a participar da normalidade e da vida cotidiana.

Recuperar os meus direitos humanos e o meu futuro, ou seja, ter uma família, um trabalho, amigos, casa, cachorra, e, reconheço um instrumento inexistente há 30 anos, quando morei em Cuiabá e trabalhei na UFMT: a internet.

Preciso hoje do computador e não do carro”.

“Esta é a minha estratégia: voltar à normalidade, criando um dia a dia viável.

Deficientes visuais conseguiram atingir, com muito maior dificuldade, este objetivo.

O AVC, no meu caso, é mais fácil de ser superado - não curado”.

A Medicina é a profissão em que o aluno é treinado para curar. Ao longo da sua carreira, descobre que ela não cura.

Alguns a definem como arte, outros, como ciência ou sacerdócio.

Afinal, qual a grande função do médico? Participar da cura quando possível, consolar sempre, ouvir muito e falar pouco.

Deixar-se consumir por aqueles que necessitam de nós e valorizar os depoimentos de um leigo, como faço agora.

Sei que essa interpretação de um avecista, levada à Academia, lhe fará melhorar da crueldade de uma sequela definitiva.

Gabriel Novis Neves

08-02-2011

* Publicado simultaneamente no www.bar-do-bugre.blogspot.com

terça-feira, 22 de junho de 2010

Senti falta

Ninguém duvida da existência de um ser superior - nosso Criador. Ele é conhecido no mundo com vários nomes. Deus para os católicos, protestantes, evangélicos, adventistas, espíritas, entre as inúmeras religiões do ocidente. Os muçulmanos, judeus, budistas, asiáticos, também acreditam num Criador, só que com outros nomes. Os nossos irmãos africanos, que tanto influíram na nossa cultura religiosa, possuem inúmeros deuses. Até os mais primitivos dos povos tinham os seus deuses, a quem temiam e veneravam. Os agnósticos ”acreditam” também, apesar de negarem o seu Deus.

Sou da cultura religiosa que chama o Criador de Deus. Que fez o mundo em seis dias, e no sétimo descansou com a sua obra concluída. Acredito no Deus do Bem, que tez a terra, os rios, os mares e oceanos. As florestas, desertos, cerrados, pântanos e geleiras. As montanhas, as serras e os picos mais altos do mundo. As flores, os espinhos. O céu, a lua, o sol, as estrelas, as nuvens. O frio, o calor, a chuva e a seca. As tempestades e a bonança. A vida no fundo dos oceanos, mares e rios. A vida na terra. Foi Deus que criou também, para habitar esta maravilha criada por ele, os seres racionais – que somos nós, e os irracionais. Todos somos filhos do mesmo Deus, destinados a perpetuar a vida na Terra.

Caminhando pela calçada da Avenida Miguel Sutil senti falta de alguma coisa. Mas, de quê? As calçadas da avenida continuavam as mesmas: imundas de detritos que o serviço público ausente tornou normal para a maioria dos animais racionais desta cidade, permutando com os terrenos baldios as suas sujeiras. Confesso que ao longo da caminhada o resultado da permuta ficou empatada.

Tudo parecia igual ao de sempre, mas eu não conseguia atinar o motivo da minha sensação de que algo estava diferente. Recorri então ao meu Deus pedindo uma luz para clarear o meu entendimento. Sei que ELE deve estar bastante ocupado com problemas mais graves do que a de um velho desmemoriado numa Avenida de Cuiabá. Mas, como fui ensinado que todo pedido feito a ELE não fica sem resposta, arrisquei. Após ter feito o pedido dei uma olhadinha para o céu, assim como para me desculpar por sobrecarregar o SEU trabalho com coisa tão pequena. E... Aconteceu! ELE de pronto me atendeu – assim penso eu. Não vi as propagandas vinculadas em enormes Front-lights que ficam no trajeto da minha caminhada. ELE me atendeu despertando a minha razão. Lembrei-me de uma lei obrigando a retirada dos enormes painéis de material de propaganda enganosa. A conduta da retirada daquele material ecologicamente incorreto do nosso visual foi uma medida salutar. O que não consigo entender, e desta vez não irei importunar o meu Deus, é porque não fizeram o trabalho completo de despoluição visual retirando os imensos postes de sustentação dos painéis dos Front-lights.

O canteiro central das avenidas foi construído, não com a única finalidade de separar as pistas de automóveis, mas também para plantar palmeiras, ou qualquer outra planta. Ficando como está, com as pesadas armações, dá a todos a impressão que a lei deixará de existir após as eleições. Bem que um amigo me disse outro dia, que a presença das armações dos Front-lights, sugere uma cova de cemitério com o caixão colocado na profundidade regimental sem terra por cima. Que é inexplicável é.

Daí o meu sentimento de falta, que permanecerá enquanto esses monstrinhos não forem retirados. Talvez as nossas autoridades estejam esperando a autorização da FIFA, que durante a COPA DO MUNDO, poderá utilizá-la para propaganda. A FIFA pode. Será que, com a poluição visual durante a COPA, não irei mais sentir falta, ao caminhar pela Avenida?

Gabriel Novis Neves
17/06/2010

segunda-feira, 21 de junho de 2010

SONHOS

Para a criança tudo é sonho, imaginação e brincadeira. É o período em que a fantasia reina absoluta. Os contos de fada - onde o bem sempre vence o mal, fazem parte do brincar. É por excelência, o mais alegre e descontraído período da nossa vida. A criança, na sua pureza de sentimentos, desconhece os valores dos adultos: dinheiro, orgulho, ambição, competição, vaidade e tantos outros. O sinal mais forte de que já chegamos à fase adulta é quando paramos de fantasiar e brincar.

Na minha transição de criança para adulto, sonhei em ser médico. Nasci e fui educado em uma pequena cidade do interior do Brasil – Cuiabá. Conhecia todos os médicos da minha cidade, que em atividade, não chegavam a vinte. Observava o ambiente em que viviam e como exerciam a sua profissão: com dedicação, humanidade, desprendimento, e acima de tudo, solidariedade. Esses foram os ingredientes que me impulsionaram para a escolha de ser médico. Infelizmente os tempos agora são outros. Estou completando neste ano as minhas bodas de ouro como médico. Participei da transformação da medicina humanística e solidária, para a medicina tecnológica e de disputa de mercado. Aquele grupo pequeno e unido da minha infância faz parte da história da Medicina. Hoje temos grupos de médicos em disputas internas e externas pelo mercado. Nesta verdadeira guerra desaparecem a ética e a solidariedade, e impera a desunião. O motivo, na maioria das vezes, é oriundo de interesses pessoais.

Não queria abordar este tema, mas acho que devemos refletir sobre a união da classe médica, não no aspecto do saudosismo, mas visando resgatar os antigos valores da nossa profissão. Fui pesquisar a fonte de inspiração para um assunto tão polêmico. Acho que descobri! Anda lendo críticos, letristas da música popular brasileira e poetas. Só quem leu que “o sonho é o domingo do pensamento” coloca em discussão um tema politicamente incorreto para muitos. Os médicos devem voltar a ter sonhos como as crianças, e o tratamento é a união da classe.

Vou contrariar Luis de Camões no seu secular alerta: “coisas impossíveis, é melhor esquecê-las que desejá-las”. Mesmo assim, conclamo os colegas a se lembrarem de que o “desejo de ser curado, faz parte da cura”.

Gabriel Novis Neves
17/05/2010


* Publicado simultaneamente no http://www.bar-do-bugre.blogspot.com/

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Médicos antigos

“Olhai por todos esses homens de branco que se propõem a salvar vidas e a prevenir doenças” – São Lucas

Fiz o meu curso de Medicina, na escola da Praia Vermelha da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, antiga capital do Brasil. O prédio da escola era de uma arquitetura belíssima. Templo da Medicina Brasileira (1918 -1978) foi demolido pelo desinteresse de uma geração. A Universidade mudou-se com a capital federal para Brasília. Muitos chamavam a nossa escola de Matriz numa alusão irônica às outras designadas de Filiais.

A festa de conclusão do meu curso de graduação foi no Theatro Municipal, há meio século. Naquela época existiam no Brasil apenas vinte e três escolas médicas, que formavam médicos. Muitos dos meus colegas naquela noite histórica estavam no palco e as suas noivas nas galerias. Após este ato solene retornaram às suas origens, aptos ao casamento e ao exercício da profissão. Devido as minhas deficiências de aprendizagem, permaneci ainda cinco anos me preparando para o retorno à Cuiabá.

Gostaria de ter sido contemporâneo e colega de Lucas, o médico evangelista. Lucas era chamado pelos seus clientes de “meu amado médico”. Como faz falta para o exercício profissional da Medicina, a confiança do cliente em seu médico, e do médico em seu paciente. Sem esta cumplicidade, acho impossível o atendimento médico de qualidade.

Esta é uma realidade que todos nós vivenciamos, e nos sentimos impotentes para revertermos essa situação tão perniciosa à sociedade, e que permite o aparecimento do técnico em doença.

Aqueles médicos de mais de meio século, estão em extinção, pelo processo natural da vida terrestre com o seu finito. A Medicina humanitária exercida por Lucas, nosso colega e padroeiro, com sua dedicação piedosa e amor ao próximo, em especial aos mais pobres e humildes, deveria permanecer sempre viva nas mentes e corações de todos os médicos. Mas, os ensinamentos de Lucas parecem que a cada dia ficam mais esquecidos. O nosso padroeiro só é lembrado nos mega eventos em outubro, quando o calendário comercial reserva um dia para os médicos comemorarem o seu dia.

Como seria bom, se a ciência médica fosse colocada ao alcance de todos e os seus médicos amados pela população!

Gabriel Novis Neves
12/03/2010

*Publicado simultaneamente no
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quinta-feira, 15 de abril de 2010

PARTOS

Justa e merecida a homenagem prestada à várzea-grandense Emília Soares pela comemoração dos seus noventa e dois anos de nascimento. Parteira, foi responsável por mais de mil partos naturais. Aprendeu o difícil ofício com sua mãe - também parteira –, acompanhando-a em suas andanças desde os doze anos de idade. Casou-se com Manuel Pinto de Arruda, tiveram treze filhos, oito dos quais nasceram pelas mãos de sua mãe. Os quatro últimos nasceram em suas próprias mãos com o auxílio do marido – na rede. O marido observava e entregava-lhe os materiais necessários: tesoura esterilizada no fogão de lenha, toalha limpa e um pedaço de fio para amarrar o cordão umbilical. Após o parto a placenta era enterrada no quintal, e o umbigo, quando caía, jogado em cima do telhado. Muita gente famosa nasceu com ela, inclusive médicos.

Li com avidez a entrevista que ela deu ao Jornal A Gazeta. Comovente! Uma heroína! E existem muitos desses heróis anônimos, observando os nossos valores atuais! Dona Emília deveria ser reconhecida pela Universidade com o título de Doutor, ou Professor Emérito, pelos serviços prestados à medicina, pelo seu exemplo de solidariedade humana, hoje tão distante da formação do médico.

A entrevista foi uma verdadeira aula sobre parto. Hoje, em clínica privada, só nascem crianças de parto normal se a gestante se internar em período expulsivo. Quase cem por cento nascem de parto operatório – cesariana. Os alunos de medicina, e muitos médicos jovens, nunca assistiram, e até confundem parto normal com parto natural. O parto normal é realizado com acompanhamento médico, durante o qual é administrado algum tipo de medicamento. Dona Emília e a sua mãe sempre realizaram o parto inventado por Deus: o parto natural feito em casa, sem o uso de qualquer medicamento.

Os modernosos são contrários ao parto natural, e condenam o parto domiciliar, mas fazem campanha e discursos a favor do “Parto Humanizado” - tão do agrado do Ministério da Saúde que, inclusive, repassa incentivos financeiros para essa prática!

Dias atrás conversei com uma colega que faz Medicina nos Estados Unidos, país dos especialistas e da melhor Medicina do mundo. Perguntei-lhe em que área atuava. “Faço obstetrícia domiciliar”, respondeu-me. A seguir quis saber sobre o perfil das suas clientes. “Gente com muito dinheiro, artistas famosas, escritoras, poetas, professoras universitárias, modelos consagrados”- esclareceu-me. “E o custo?” – indaguei. “Caro – ela respondeu -, pois é montado na casa da gestante um mini hospital, - mais para dar segurança à gestante do que pelo parto em si – um fenômeno natural como a própria Natureza.

Um exemplo recente de parto natural foi o da famosa brasileira Gisele Bündchen. E, não me venham dizer que ela parindo naturalmente em casa e amamentando é um péssimo exemplo! Também não creio que essa mulher riquíssima e famosa, que poderia fazer uma cesariana em qualquer hospital do mundo e com a melhor equipe médica, estivesse desinformada a ponto de dar um mau exemplo e correr risco de morte materno-infantil. Nessas condições o parto natural feito pela Dona Emília é o indicado.

Gosto e admiro os vencedores. Dona Emília, pela sua trajetória de vida, passa a pertencer a minha galeria de exemplos a serem seguidos. Obrigado, professora, pela aula.

Gabriel Novis Neves
11/04/2010
* Publicado simultaneamente no www.bar-do-bugre.blogspot.com