quarta-feira, 25 de agosto de 2021

ESCOLA DE MEDICINA DA UFMT



Criada em maio de 1970 como pertencente ao ICLC (Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá). Com a criação da UFMT em 10-12-1970, passou a fazer parte dos seus novos cursos, porém só foi implantada em 1980.

Esse longo espaço de tempo tem como explicação a punição do governo federal na década dos anos 60, quando houve desenfreada e desorganizada criação de cursos de medicina por todo o Brasil, às vezes em cidades sem as mínimas condições de aceitabilidade para um curso como esse.

Como as pressões políticas eram intensas para novas escolas médicas, o MEC reuniu um grupo composto de mais de vinte mestres da medicina no Brasil, todos de universidades públicas dos grandes centros - centro sul, nordeste e alguns do Norte.

Nenhum pretendente conseguia “furar” a fila para funcionamento de novas e necessárias escolas como a de Cuiabá.

Conseguimos agendar um encontro com a comissão de “sábios” professores após varias desmarcações de audiências confirmadas anteriormente. 

Finalmente, em fins de 1979, conseguimos à tarde, logo após o almoço,  a entrevista desejada. 

Uma longa mesa era presidida por um ilustre e tranquilo professor de Porto Alegre, demais conselheiros de vários estados do Brasil e o grupo sabatinado era composto do Reitor, Pró-Reitor Administrativo, Auditor Geral da Universidade e o professor encarregado de implantar o Curso de Medicina da UFMT.

O Presidente iniciou os trabalhos, fazendo aos conselheiros um breve relato da reunião para analisar se a UFMT tinha condições de implantar o novo curso de medicina no próximo ano letivo de 1980.

Após discussão entre os conselheiros, totalmente contrários à abertura de novos cursos de medicina, foi dada a palavra ao Reitor para justificar e demonstrar que a UFMT tinha condições de implantar um belo e moderno curso de medicina em universidade pública de Cuiabá.

Antes de o Reitor falar, um conselheiro professor e escritor do Rio de janeiro, virou-se de costas, demostrando toda sua falta de educação e ignorância com relação ao Brasil.

Após a fala do grupo de Cuiabá, foi colocada em votação para apreciação a autorização do tão esperado curso de medicina, que foi aprovado com várias recomendações.

Passados quarenta anos o nosso curso pela avaliação de MEC é um dos cinco melhores cursos de medicina do país!

Essa foi o maior adversário para que a escola criada em 1970 só viesse a funcionar em 1980!

Tudo valeu a pena, da longa espera humilhante à autorização com inúmeras restrições.

Vencemos! Deus me concedeu vida longa para saborear a vitória de Cuiabá possuir a sua decana escola de medicina.


Gabriel Novis Neves

25-08-2021



domingo, 18 de julho de 2021

GOTEJAMENTO

 


O médico acompanha os tratamentos. No caso, para exemplo, dez dias com aplicações venosas de antibióticos dissolvidos em uma bolsa com cem mililitros de soro fisiológico, de oito em oito horas. Prescrição precisa, tempo para aplicação e técnicas para aplicar e cuidar bem executadas.


Percebendo o gotejamento perfeito na veia, inevitável a satisfação e a alegria de ver aquilo, sinal que o antibiótico corria normalmente em veia do dorso da mão esquerda. 


Anos à fio, no exercício da medicina, me ocupei com essa atitude, sempre satisfatória. Imediatamente me recordei quando, desde o início do exercício da minha profissão, reconhecia a importância de uma boa veia para o sucesso do tratamento.


Quantas vezes telefonei para o hospital para saber se o gotejamento da paciente que operei estava bom!


Nas emergências, a primeira providência do médico era providenciar uma veia para passar o soro ou sangue.


São coisas tão pequenas que, na maioria das vezes, passam despercebidas ao paciente, desapercebido do bem-estar profissional que sentimos até com os pequenos êxitos.


Quem trabalha com a saúde dos pacientes, reconhece que nem sempre as grandes intervenções ou diagnósticos são capazes de substituir as pequenas coisas, como o sorriso de quem sofre.


O abraço, olhar, o afago são recompensas desta profissão tão sofrida e incompreendida!


Sou de uma das últimas gerações de médicos da antiga escola francesa.


Hoje o que predomina é a tecnologia, cada vez mais sofisticada e cara.


Entendo, porém  que nada substitui uma boa anamnese e um detalhado exame clínico para a fixação das primeiras hipóteses.


Chegamos ao cúmulo de, no atendimento a pacientes de primeira consulta, em alguns casos, novos médicos solicitarem um "montão" de exames laboratoriais mesmo antes de analisar as queixas sobre o quadro clínico. 


Mesmo com queixas pulmonares evidentes, já se percebe que têm resistência à auscultar sequer o tórax desse infeliz.


É imediatamente encaminhado ao laboratório de imagens para tomografia pulmonar, onde o paciente recebe comandos de voz de um computador: “encha o peito de ar, prenda a respiração, respire”!


Até o velho Raio-X do tórax está obsoleto nos dias de hoje.


A medicina fica cada vez mais distante da maioria da população.


Nós ainda temos o SUS que, bem administrado, é um sucesso.


E os EUA? Onde não há esse tipo de atendimento e os seguros de saúde são inaccessíveis a maioria da população?


Defendo que deveríamos humanizar os serviços de saúde e sentir emoção nas coisas mais simples do dia-a-dia desses profissionais.


Mesmo afastado do exercício clínico, continuo sentindo um prazer enorme vendo o gotejamento perfeito em uma veia.


Gabriel Novis Neves

17-07-2021

quinta-feira, 1 de julho de 2021

SUPERSTIÇÕES NO PARTO

 


Desde antigamente as superstições no parto abastecem o nosso imaginário com fatos os mais diversos possíveis.


A medicina é uma ciência cuja prática enfrenta crenças infundadas impregnadas em certos pacientes, crentes que os atos poderiam sofrer influências da sorte, azar, etc; e nada melhor que no trabalho de parto para exercitá-las.


Na moderna obstetrícia é muito recente o parto hospitalar e lembro o exemplo da minha mãe, que terminou nove gestações com partos normais caseiros.


Quando minha irmã caçula nasceu, próximo dos anos 60, eu cursava o medicina no Rio de Janeiro e quem fez o parto foi meu próprio pai, comerciante, que estava bem treinado para assistir ao nascimento de um bebê.


O parto caseiro tem o ritual pré e pós-parto, todos ricos em superstições.


Preparar as chaleiras de água quente para o banho do bebê e a higiene das parturientes.


Cavar no quintal um buraco para enterrar a placenta e escolher um cálice de cristal para depositar o vinho do Porto que saúda o novo morador da casa.


A presença das parteiras acontecia no início do trabalho de parto ou rotura da bolsa de águas.


Isso poderia demorar até dois dias, dependendo da fase do trabalho de parto quando eram chamadas.


Uma cuidadosa parteira tinha em sua bolsa profissional uma garrafa de vidro vazia, um vidro de óleo, um de mercúrio cromo, algodão, atadura, um pedaço de fio esterelizado e tesoura.


Trazia consigo também, para pendurar no pescoço das suas parturientes, um enorme "breve" (escapulário), onde se acreditava guardarem orações milagrosas escritas em papel, envoltas por tecido.


Durante as contrações uterinas do trabalho de parto, as parturientes recebiam instruções para agarrar firme naquele amontoado de panos formando uma circunferência do tamanho de uma bolacha, e fizessem preces para que tudo ocorresse bem.


Na alta, a parturiente entregava o "breve", no mais das vezes envolto por um novo tecido, pois o original costumeiramente terminava manchado pelo suor ou gotas de sangue.


Quando retornei formado médico para Cuiabá conheci muitas parteiras, verdadeiras heroínas da nossa sociedade, especialmente dos menos privilegiados economicamente.


Trabalhavam diuturnamente e não exigiam ou se importavam com gratificações.


Recebi no hospital muitas parturientes com sua parteira e as tratava com respeito e admiração.


Em uma tranquila madrugada, acompanhei até o nascimento do bebê a uma gestante adornada com um gigantesco colar e "breve" no pescoço.


Conhecedor da história do "breve", perguntei-lhe sobre a crença na força dessa superstição.


Diante da resposta afirmativa, fiquei imaginando a curiosidade de um colega mais antigo, que teve o desplante de solicitar autorização para, com uma gilete, desfazer as inúmeras costuras das bolsas que guardavam a oração milagrosa.


Concluído o trabalho encontrou um pedaço de papel que dizia:


“Quer parir pari, não quer, não pari”.


Estava desvendado o mistério que acalentou gerações de parturientes.


Temos que acreditar também nesta centenária ciência que é a da fé!


Gabriel Novis Neves

29-06-2021


Nota do Editor: Há versão corrente na cuiabania que um dos "breve" continha maldição apregoada pelo autor da milagrosa oração: "Quer parir, pari. Não quer parir, vá para p.q.p."

quarta-feira, 9 de junho de 2021

MEDICINA TRANSLACIONAL

 


Quem me chamou atenção para esse tema foi o meu querido amigo Sebastião Medeiros, professor, estudioso e pesquisador nato da nossa UFMT.


Baseei-me em estudos realizados no Instituto do Coração em São Paulo.


Estudei o tema e achei interessante fazer um resumo desse conceito moderno, que abrange três aspectos.


1. A aceleração de transmissão de conhecimentos de pesquisa básica á aplicação clínica.


2. Aprofundamento de observações clínicas, em busca de melhor entendimento fisiopatológico pela interação com a ciência básica.


3. Aplicação à população geral.


Para tanto, necessitam-se de estruturas técnicas e administrativas que incluem pesquisadores, instituições, orçamento e cultura de integração entre as diferentes equipes de trabalho.


Pela complexidade desse conjunto, apenas instituições de excelência podem se engajar com sucesso em tais programas.


O Brasil já conta com algumas instituições de prestação de serviços médicos e pesquisa que atendem esses requisitos.


Crucial ao desenvolvimento de programas translacionais, as universidades devem atender dentro do princípio de meritocracia.


Neste ponto, universidades brasileiras precisam de transformações profundas.


Por fim, a medicina translacional, ao visar o progresso científico e a melhoria da saúde da população, está em destaque.


E basta de histeria quando a ciência avança um pouquinho.


Gabriel Novis Neves

05-06-2021

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

ESCOLAS PRIVADAS DE MEDICINA


Os estudiosos do ensino médico estão preocupados com o aumento das escolas médicas privadas em nosso país.
Para melhor compreensão basta recordar que em 2003 tínhamos 64 escolas particulares e em 2015 esse número saltou para 154, segundo levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina e publicado no Jornal Medicina de agosto de 2015.
Enquanto isso, no mesmo período, as escolas públicas aumentaram seus estabelecimentos de 62 para 103.
Isso comprova um crescimento desordenado e sem qualidade que compromete a qualidade dos futuros profissionais da saúde.
Em números totais o volume de escolas médicas também mais que dobrou. Esses dados podem mudar nos próximos meses, pois 36 municípios já conseguiram autorização para receber novos cursos de Medicina.
Até fins de 2016 nossa nação contará com 293 escolas funcionando. Com um agravante: mais 22 novos municípios solicitaram permissão para funcionar suas escolas médicas, o que pode elevar esse número para 315.
Temos hoje em atividade no país 257 cursos. 69% estão localizados nas regiões Sudeste e Nordeste. 158 cidades brasileiras têm escolas médicas. 
Os Estados de São Paulo e Minas Gerais concentram um terço das instituições.  As escolas particulares cobram mensalidades que chegam até R$ 11.706,15, com média de R$ 5.406,91.
Liderando o ranking dos Estados com maior número de escolas pagas temos São Paulo com 44, Minas Gerais com 39 e o Rio de Janeiro com 19.
Nas últimas posições, com uma escola cada, temos o Amapá e Roraima, sendo as duas públicas.
Colocando didaticamente o quadro de distribuição de escolas médicas em nosso país, dificultando em parte a fixação do médico no interior, temos o seguinte quadro:
Região Sudeste - 107 escolas com 10.577 vagas.
Região Nordeste - 63 escolas com 5.553 vagas.
Região Sul - 41 escolas com 3.449 vagas.
Região Centro-Oeste - 24 escolas com 1.917 vagas.
Região Norte - 22 escolas com 1.787 vagas.
Apesar de possuirmos em funcionamento o dobro de escolas médicas que os Estados Unidos da América do Norte, continuamos importando médicos com baixa qualificação científica para atender inúmeros municípios sem médicos e sem estrutura física para um atendimento básico.
Algo terá que ser revisto para a saúde de 75% da nossa população dependente do atendimento público (SUS) - de 200 milhões de habitantes.
Aguardemos lucidez dos nossos governantes para corrigir essa injustiça, se é que o problema se resuma à falta dela.

Gabriel Novis Neves
04-11-2015


* Publicado simultaneamente no www.bar-do-bugre.blogspot.com

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Breve


Quando iniciei os meus estudos formais na Escola Modelo Barão de Melgaço, aprendi, entre outras coisas, que para usar o sanitário da instituição existia um protocolo.
Na mesa da professora havia uma pequena placa de madeira que indicava vacância do lugar para uso fisiológico de emergência.
Os alunos, quando em necessidade, sempre pediam permissão à professora, que autorizava sua utilização, mas com a recomendação de não demorar...
No começo da minha atividade como médico parteiro em Cuiabá, a maioria dos partos era realizada em domicílio. Os demais, na pequena maternidade da Rua 13 de junho.
Quando o trabalho de parto ultrapassava os limites possíveis do tempo, havendo risco de vida para o binômio feto-mãe, a parteira que atendia a intercorrência pedia para um familiar buscar o “breve” na casa da última parturiente, que havia utilizado com sucesso.
Consta da nossa história que uma oração milagrosa foi embrulhada em uma pequena bolsa de tecido comum e presa em cordão que era colocado pela cabeça da parturiente.
Esta agarrava forte aquela relíquia que, segundo a lenda e depoimentos de pessoas da época, produziam uma expulsão fetal da cavidade uterina quase imediata.
Após mais um sucesso dessa crença, na devolução, um novo tecido era colocado em cima da bolsa inicial.
Eram tantas as solicitações para uso desse amuleto para o parto rápido, que o aumento das camadas de tecido fizeram um cordão do tamanho de uma grande bolacha.
Certa ocasião, um experiente obstetra foi chamado à casa de uma mulher com complicado e demorado período expulsivo.
Analisou bem a situação e ia retirando da sua bolsa de emergência um pequeno fórceps francês para a extração de alívio do feto, já com uma tremenda bolsa serosanguinolenta na região vulvar, quando, em contração, com firmeza máxima ao apertar o “breve”, aconteceu aquilo que o doutor imaginava não ser possível sem ajuda da tecnologia.
O recém-nato nasceu chorando, para alegria de todos que comemoraram tomando a urina da criança - um bom vinho português.
Curioso com tudo que presenciou, e ciente da fama do “breve”, que significava parto rápido, o parteiro pediu permissão para conhecer a oração milagrosa.
Com uma gilete desfez todas as costuras e, finalmente, encontrou um pequeno papel com a seguinte inscrição: “Quer parir, pari, não quer, não pari”.
Ficou provado que a medicina não faz milagres, e que a fé, realmente, remove montanhas.

Gabriel Novis Neves
19-10-2015


* Publicado simultaneamente no www.bar-do-bugre.blogspot.com

terça-feira, 10 de novembro de 2015

MEDICINA


Estatísticas recentes indicam que mais de cinquenta milhões de brasileiros, para não serem vítimas da omissão constitucional do Estado, utilizam algum plano ou seguro de saúde para sua manutenção pessoal.
Comercializada, a relação médico-paciente desaparece, surgindo um vínculo voltado ao lucro, inviabilizando o exercício da medicina hipocrática, pontuada muito bem pelo Presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).
O médico passa a ser chamado de “prestador de serviço” e o cliente de “usuário”.
O antigo facultativo é remunerado pelas leis do mercado, e os contratos de serviços prestados receberam o apelido de “pacotes” e “pacotinhos”.
Os honorários profissionais desapareceram dos trabalhos médicos e o mercantilismo atingiu também o ensino da medicina, onde centenas de novas escolas foram autorizadas a funcionar a partir de 2003, sendo que 69% delas são privadas.
As mensalidades nessas escolas privadas chegam a atingir a incrível cifra de onze mil reais mensais, ficando na média de cinco mil e quatrocentos reais.
O Ministério da Educação, através de normas, define critérios para um município sediar uma escola médica, entretanto, os mesmos nem sempre são respeitados, segundo o Conselho Federal de Medicina.
Essas escolas, assim criadas e implantadas, confiam na cumplicidade ou incapacidade de fiscalização do MEC que, com deficiência de técnicos e recursos financeiros, acaba com os sonhos dos estudantes de frequentar uma qualificada casa de ensino.
Dessa forma, a segurança dos pacientes com bons médicos no sistema de saúde termina frequentemente em enorme frustração.
É oferecido à população um ensino-aprendizado de péssima qualidade, formando profissionais com insuficiência de conhecimentos científicos para o exercício da mais humana das profissões.
É intolerável esta realidade, que tem como sustentação, apenas, ganhos empresariais e ambições político-partidárias.
Temos de tratar de obter propostas de interesse público, e apagar esse vergonhoso quadro.

Gabriel Novis Neves
26/10/2015


* publicado simultaneamente no www.bar-do-bugre.blogspot.com