terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Qual é?

Um querido amigo jornalista certa ocasião em um bate papo perguntou-me: “- Qual o seu estilo de escrever?”

Ocupei cargos importantes no serviço público no período entre 1966-1985, com uma patológica recaída de nove meses em 2003. Durante todos esses anos, só para colação de grau na UFMT, escrevi cerca de quarenta discursos. Não estou contando as formaturas de 1º e 2º graus em todo o Estado de Mato Grosso como Secretário Estadual de Educação.

O experiente jornalista, que sempre acompanhou o meu trabalho, não conseguia identificar o meu estilo de escrever. Expliquei-lhe que publiquei muitos textos, e escrevi até para orelha de livros. Faltava-me até tempo para a produção desses trabalhos. O tema das falas era sempre escolhido por mim. Discutia com a equipe de colaboradores que desenvolviam as idéias, mas a redação e edição final eram da minha inteira responsabilidade. Sempre me davam muito trabalho - especialmente para a colação de grau - o título e o conteúdo do discurso - considerado avançado para a época.

Em uma colação de grau falei de um bife que foi lançado ao chão. Ao entrar certa vez no recém inaugurado Restaurante Universitário (com satisfação e um pouco de melancolia, lembrando do tempo em que fazia as refeições no Restaurante da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha do Rio de Janeiro), vejo um aluno, provavelmente com hipoglicemia, receber de uma humilde funcionária o seu “bandejão.” Um enorme bife estava colocado em cima de um morro de arroz. Com o garfo o aluno tentou espetá-lo para levá-lo à boca. Com o insucesso, devido à carne não estar tão macia para a dentada que iria encher-lhe a boca de carne, lança o bife ao chão. Foi uma cena que não consegui esquecer, e serviu de tema para o discurso da formatura daquele ano. Ao lançar as proteínas no chão, alguém teria que abaixar-se para jogá-lo no lixo. Esse alguém, talvez ao sair de casa, não possuísse um pedaço de carne sequer para alimentar os seus filhos. A reflexão foi sobre a injustiça social representada naquele ato e o humanismo que sempre deve nos acompanhar.

Outro discurso que marcou muito o meu estilo foi o da colação de grau de janeiro - logo após a divisão do Estado. O povo cuiabano estava cabisbaixo e perdido a sua auto-estima. Em vez da tradicional exaltação para aqueles que tiveram oportunidade de cursar um curso superior e os famosos agradecimentos aos vivos e mortos, fui direto à ferida. No discurso iniciei dizendo que desde o nascimento da UFMT tínhamos as costas viradas para o sul do nosso Estado e o nosso único interesse era o norte. Para tentar elevar a auto-estima da minha gente, traduzi esse tempo em horas. Notei a mudança nas fisionomias dos presentes que lotavam o nosso Ginásio de Esportes. Mais uma vez os “pistoleiros intelectuais” trabalharam na elaboração do documento.

Passados os anos a amizade e a admiração pelo velho jornalista continuam e o meu estilo de escrever é este que está disponível no
www.bar-do-bugre.blogspot.com e no www.gnn-cultura.blogspot.com.

Gabriel Novis Neves
Cuiabá, 11/12/2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A palestra

A Academia de Medicina de Mato Grosso realiza todos os meses uma palestra sobre Saúde proferida por uma personalidade. Este mês o palestrante foi o Professor Eduardo Delamônica. Tivemos o privilégio de escutá-lo sobre o tema Educação Médica.

Delamônica é médico, professor da Universidade da Selva, e foi o terceiro reitor da sua história.

Homem íntegro, ético, estudioso e extremamente comprometido com os problemas sociais.

Tenho preguiça de sofrer, mas confesso que sofri muito durante a fala do meu colega, ao ouvi-lo contar a história das Escolas de Medicina do Brasil e de Mato Grosso.

Não sei trabalhar com o passado que não volta mais. As coisas boas e más são cicatrizes que não devem ser atritadas. Produzem sangramentos desnecessários.

Saindo da história, ele nos fez viajar pela longa estrada pedagógica da educação médica. A proposta do nosso professor para o Brasil formar médicos contemporâneos data de 1976 - quando implantou o ensino integrado na nossa Uniselva. Só agora, passados trinta anos, o Ministério da Educação está recomendando às escolas médicas brasileiras adotar aquele modelo.

Afinal, o que está acontecendo com a formação do médico no Brasil? Ficou claro na palestra a irresponsabilidade do Governo Federal. Nos últimos dez anos foram criados no Brasil, com autorização de Brasília, mais de setenta escolas médicas, e o pior é que, na sua maioria, sem as condições mínimas de oferecer um bom ensino.

Este mal atingiu, na visão do palestrante, o nosso conceituado curso de medicina da UFMT, que é excelente também pelo pequeno número de alunos. “- Abriram demagogicamente as porteiras da escola, dobrando o número de vagas,” brada Delamônica. “- Criminosamente, como vem acontecendo com a educação brasileira, não são fornecidos os instrumentos necessários para proteger a sua qualidade,” diz Delamônica.

E continua:- “Temos um monstro cabeçudo de pernas finas. Formaremos médicos defeituosos. Cuiabá é uma cidade de 600 mil habitantes. Aumentou de 140 para 208 o número de vagas para formar médicos. Saímos de uma greve de 70 dias na saúde por melhores condições de trabalho, quando ficou amplamente demonstrada a nossa fragilidade física hospitalar. Oferecer certificados de nível superior virou mania neste país”, conclui Delamônica.

O desinteresse das nossas autoridades por este assunto é grande, mas os ventos levarão as suas idéias a algum terreno fértil.
É o que espero.

Gabriel Novis Neves
23-11-2009


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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A medicina no interior

Periodicamente, o Conselho Regional de Medicina (CRM), visita as cidades do interior do Estado com a finalidade de ministrar cursos de atualização, prestar assessorias, constatar como andam os serviços de saúde e verificar o grau de satisfação dos médicos. O último trabalho do CRM abrangeu quatro dos municípios mais ricos economicamente de Mato Grosso: Sorriso, Sinop, Lucas e Nova Mutum. Conversei com um colega do grupo de verificação e o seu relatório foi simplesmente desanimador. “-Tudo que acontece em Cuiabá, e é motivo de severas críticas, encontramos com juros e correção monetária nestes municípios.”

Faltam médicos, leitos hospitalares, postos de saúde, UTIs, pronto atendimentos e medicamentos. Os pacientes enfrentam enormes filas para chegar a um consultório médico. Hospitais lotados com pacientes amontoados pelo chão, cadeiras e macas. Os médicos, de um desses municípios, não tem nem contrato de trabalho. É tudo de “boca”. As condições de trabalho oferecidas aos profissionais de saúde são as piores possíveis. O CRM pedirá a interdição do maior Pronto Atendimento Municipal das quatro cidades - por não preencher as normas mínimas exigidas para o seu funcionamento.

O coração do agronegócio tem tudo para ter um serviço médico de qualidade. Entretanto, faz saúde pública motorizada, não com as obsoletas ambulâncias, e sim com os superônibus trafegando em estradas pavimentadas no transporte dos seus pacientes para Cuiabá.

O caos da saúde está implantado em todo o Estado. Pelo menos por aqui existem os seguidores de Pablo Neruda, que falam por aqueles que não são lembrados.

A medicina no interior de Mato Grosso é rudimentar. Só existe no INFORMATIVO, que circula como encarte de um jornal de Cuiabá.

Gabriel Novis Neves
30/11/2009

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

IAPP

Em muitos países o IAPP já foi implantado. Estou torcendo para que esta conquista científica chegue ao Brasil.

O IAPP - Instituto de Avaliação Psicológica do Político - é uma necessidade dos tempos pós-modernos. Com a implantação deste serviço preventivo ganharemos muito em avanços tecnológicos, e, além de tudo, economizaremos recursos.

Várias gerações foram prejudicadas elegendo governantes psicóticos, neuróticos, psicopatas, e especialmente, carentes de notoriedade. Se tivessem sido submetidos ao teste do IAPP, com toda certeza não teríamos perdido o trem da modernidade, e nem entrado no vermelho durante anos no FMI. Até hoje pagamos um alto custo pela falta da implantação do IAPP.

No nosso Estado então, a situação é de emergência. Diariamente assistimos ao inacreditável. Com o IAPP, o meio ambiente seria entendido como um bem da humanidade, e as crianças, como o futuro deste país.

A fixação do homem no campo, em condições humanas de vida, seria interpretada como fator principal de eliminação da miséria social das metrópoles.

O IAPP é uma poderosa “enxada” para diminuir a violência já institucionalizada, a gestação precoce e a dependência química dos nossos jovens. As estradas valorizadas seriam não só as do asfalto, - necessárias para escoar a produção do agro negócio.

A estrada que me refiro só poderia acontecer com os aprovados no teste do IAPP: são as estradas das oportunidades e esperanças para todos. Não suporto mais viver em um mundo de números! Quero contabilizar gente. Gente educada, com saúde, segurança, emprego e felicidade.

Que falta nos faz o IAPP – Instituto de Avaliação Psicológica do Político!

Gabriel Novis Neves
30 de Novembro de 2009
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O envelhecer

“As coisas nunca são tão boas quanto esperamos, nem tão ruins quanto tememos”.

O que seria da humanidade sem o humor das histórias do português, mineirim e idosos? Os velhinhos e velhinhas ocupam na minha classificação o 1º lugar. O idoso é um privilegiado, além de trabalhar longo tempo para a sociedade, quando está para mudar de idade - que é a morte - ainda propicia entretenimento especialmente aos mais jovens. E a medicina nos tem ajudado muito na arte de envelhecer com humor.

É muito bom e saudável contar piadas de velhos. São as minhas preferidas, e para não melindrar ninguém e me livrar de um processo por assédio ou atentado ao pudor, utilizo sempre como personagens a minha família e eu.

Lembro-me da história do meu avô, que ao completar 100 anos, e nunca ter ido ao médico, ganhou como presente uma consulta. Veio de carroça do Livramento, seguido por aquele bando de descendentes: todo de terno branco, chapéu de palha, gravata borboleta, sapato preto, um cigarrinho forte e sempre aceso, com a escarradeira portátil, pois era dia de festa, e sua quinta mulher, educadíssima, não o deixou jogar o produto amarelado e abundante dos seus pulmões pela estrada.

O ramo da família que morava em Cuiabá, desde cedo o esperava na porta do consultório médico, na Rua dos Porcos. Quando meu avô chegou para consulta, foi aquela festa danada. Gente falando alto, tropeçando pelas calçadas e corredor do consultório.

Vovô é atendido pelo médico da família. Após minucioso exame clínico, o médico dá o seu parecer definitivo: o senhor está ótimo de saúde. Peso, pressão arterial, pulso, aparelho locomotor, tudo bem. De maldade, indaga ao meu avô: e aquela “outra parte” como está? Com dificuldade na sua audição, vovô solicitou ao médico que falasse mais alto. Com o aumento dos decibéis do doutor, o meu avô entendeu a pergunta e assustadíssimo responde: Doutor, esse negócio acaba?!

Nada acaba com o envelhecer, apenas modificamos o modo de conduzir a nossa vida. Dependemos de fatores externos como a genética e o meio ambiente para uma longa vida, mas isto é tarefa de Deus. Em segundo lugar, a vida longa e saudável é composta de pequenas vidas, que unidas produzem a longa vida. Temos sempre que recomeçar para não deixar faltar o combustível indispensável a uma vida saudável que é exatamente o começar.

O envelhecer não é nunca o terminar. É começar um novo tempo. Quintana foi quem melhor nos deu a dimensão do envelhecer. O poeta gaúcho afirmava que só temos duas idades - ou estamos vivos, ou estamos mortos.

O envelhecer não é a melhor idade. Melhor idade é sempre aquela que vivemos com saúde física e mental. Garanto que envelhecer é pelo menos a idade mais engraçada na vida das pessoas. É onde o aprendizado é diário. No meu caso, aprendi muito nesses últimos 5 anos:
- Aprendi a dormir só em uma imensa cama de casal.
- Aprendi, a saber, o preço das compras do mercado, da luz e da taxa do condomínio.
- Aprendi a viver me desviando dos preconceitos.
- Aprendi a prestar atenção na folhinha, para que os meus hábitos de consumo, mensalidade da academia de ginástica e o pagamento dos empregados não ficassem inadimplentes.

Enfim, aprendi também que na minha idade posso falar e fazer de tudo sem punição, exceto cometer infrações contra a ética e a dignidade das pessoas.

As famosas limitações dos idosos não existem se os mesmos encararem o fato como um novo ciclo. Se os cabelos estão prateados, vamos viver com os cachos prateados. Pintados, só servem para sujar a fronha do travesseiro. Papadas e bolsas nos olhos? Bem aventurados sinais de uma história longa. Botox para correção? Vou ficar a cara da Rogéria.

Os lábios afinam-se com a idade, de tantos beijos de amor que não economizamos em nossa juventude. Isto é troféu. Os jovens têm lábios carnudos porque não tiveram tempo de gastar esta camada protetora da boca com beijos ardentes. Porque preenchê-los e apagar os nossos amores? A pressão arterial aumentou? Benditos vasos sanguíneos resistentes ao tempo, sem entupir ou romper-se.

As mulheres só perdem com a idade, aquilo que sempre consideraram perdas – a menstruação. Na velhice, estão livres desta coisa chata, tão em desuso hoje com as histerectomias.

Como é belo ouvir o depoimento de uma Fernanda Montenegro que vive da arte e da imagem, afirmar, que aos 80 anos nunca procurou alterar os traços que a natureza lhe deu. A maioria das pessoas que não entendem o envelhecer me transmite a imagem do gato na praia escondendo as suas porcarias.

O envelhecer é saber se desfazer das nossas inutilidades para continuarmos com alegria de viver, num pequeno espaço comparado ao ninho vazio dos pássaros.

Envelhecer não deve nunca ser utilizado para rever o passado. Isto clinicamente significa um futuro incerto. A saudade também não deve constar na cartilha dos envelhecidos. Saudade não serve para nada. O que foi bom, não volta mais. E o que de ruim passamos, pertence ao lixo do esquecimento. Saudade só faz a gente sofrer. A saudade é a casa da morte, e nós estamos vivos, embora, envelhecidos. Esta não será nunca a nossa residência. Tristão de Atayde, na sua imensa sabedoria cunhou: “saudade é a presença da ausência”.

O idoso não deve ser tratado de uma maneira preconceituosa, como pertencente à melhor idade e ter direitos especiais, só porque tem 65 anos. O idoso não procura privilégios, mas felicidade. “Felicidade é alguém para amar, algo para fazer e algo para aspirar” (Poeta inglês). “Felicidade é um lugar onde você pode pensar, mas não pode fazer seu ninho”(Condessa francesa).

Há tempos anotei estas verdades sobre o envelhecer:

Enfim, envelheço quando o novo me assusta e minha mente insiste em não aceitar.

Envelheço quando me torno impaciente, intransigente e não consigo dialogar.

Envelheço quando meu pensamento abandona sua casa e retorna sem nada a acrescentar.

Envelheço quando muito me preocupo, e depois me culpo porque não tinha tantos motivos para me preocupar.

Envelheço quando penso demasiadamente em mim mesmo, e consequentemente me esqueço dos outros.

Envelheço quando penso em ousar e já antevejo o preço que terei que pagar pelo ato, mesmo que os fatos insistam em me contrariar.

Envelheço quando tenho a chance de amar e deixo o coração que se põe a pensar.

Envelheço quando permito que o cansaço e o desalento tomem conta da minha alma que se põe a lamentar.

Envelheço quando paro de lutar!

Gabriel Novis Neves
27 de Outubro de 2009

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domingo, 29 de novembro de 2009

Filosofia do cavalo

Em emocionante artigo a diretora de redação de um dos grandes jornais de Cuiabá relata a sua luta contra o câncer. No Dia Mundial de Combate ao Câncer (27 de novembro), a jornalista, que se identifica como sobrevivente de um câncer registra o que ela chamou de criminosas políticas públicas de tratamento no Brasil desta doença.

80% das vítimas desta doença dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). 20% são pacientes da rede privada. Ficou evidente na análise da jornalista que existem pacientes de primeira classe (tratados em hospitais privados) e os de segunda classe (tratados pelo SUS). Ela confessa que está curada, porque era paciente de primeira classe. É a realidade vista por uma paciente.

Como médico há cinqüenta anos o meu cotidiano é o sofrimento humano. Participei recentemente de um congresso médico, e no seu final, prometi a mim não voltar mais a nenhum. É desumano para um médico dominar novas tecnologias e terapias, e diante de um paciente de segunda classe (80% da população brasileira), não poder utilizar aqueles conhecimentos. O pior é que se a classe médica reclama das condições oferecidas aos pacientes pobres ela é quase destruída pelos plantonistas do poder.

Acabo de saber que um paciente de segunda classe morreu por falta de um desfibrilador cardíaco. E a impotência do médico ante tal situação? Só lhe resta deixar o plantão e fazer um Boletim de Ocorrência (BO) na delegacia policial mais próxima, para não ser responsabilizado pela morte.

Minha mulher morreu de câncer, embora fosse passageira de primeira classe como a jornalista. É difícil acompanhar a trajetória desses pacientes “até a sua aposentadoria totalmente fora de hora”.

E o que fazem as nossas autoridades? Aplicam no orçamento da saúde a filosofia do cavalo na parada de 7 de setembro:

Andando, cagando e sendo aplaudido...

Gabriel Novis Neves
29-11-2009
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FELICIDADE

Sempre me interessei por este assunto e é a ferramenta principal que utilizo no pré-natal das minhas clientes. Há trinta anos, após vinte pesquisando o perfil das minhas gestantes, com a orientação de artistas plásticos, escultores, pintores e fotógrafos, montei o único consultório de terapia visual de Cuiabá.

A gestante acha que neste período de reprodução, fica feia. Tem receio de perder o interesse sexual do companheiro; apresenta dúvidas com relação ao tipo de parto; preocupações com a saúde do neném; insegurança se encontrará o seu médico quando em trabalho de parto, e finalmente, “medo” dos honorários do seu obstetra. Trabalho contra estes valores adquiridos no meio em que vivem as nossas futuras mamães, e procuro reverte-los, pois, com certeza, isto ajudará o futuro do seu neném.

Após o nascimento, sempre repito aos pais, que o único objetivo do recém-nascido saudável é reencontrar a felicidade perdida com a sua saída do útero. O útero materno é o céu que perdemos com o nosso nascimento. ”Jogados” ao mundo, imediatamente procuramos encontrar a felicidade. Desde que nascemos corremos atrás dela, mas a felicidade está sempre correndo atrás de nós.

”A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Voa tão leve, mas tem a vida breve”- Vinícius de Moraes.

Mas afinal o que é a felicidade? Sempre tive dúvidas se sou ou não feliz. Lendo uma revista de circulação nacional fiz espontaneamente o teste da “Felicidade Interna Bruta”. O resultado para mim foi surpreendente! Eu não sou feliz, e sim, muito feliz - na contagem dos pontos do teste da revista.

Só me falta agora acreditar no teste e escrever o que é ser muito feliz.

Gabriel Novis Neves
28/11/2009


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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CONVITE

Atendendo a um convite provocador da Sociedade Brasileira de Cardiologia – MT para proferir a Conferência de Abertura da IX Jornada de Cardiogeriatria de Mato Grosso e V Jornada de Geriatria e Gerontologia de Mato Grosso, fui estudar as desvantagens de envelhecer.

Confesso com toda a sinceridade que não encontrei nenhuma. Alguém poderá a esta altura pensar que eu “pirei” e preciso de tratamento psiquiátrico. Ledo engano. Estou muito bem “das saúdes”.

Com o acréscimo de vida aos meus dias sou forçado a enfrentar modificações fisiológicas facilmente controladas com a farmacologia moderna. O último problema masculino era a irrigação dos corpos cavernosos resolvida com o uso da pilulazinha azul, e nos casos mais graves, a prótese de silicone. Diabetes, hipertensão arterial, reumatismo, catarata, queda de cabelos e rugas, a tecnologia médica controla, e bem.

Chamar a terceira idade como “a melhor idade”, para mim é puro preconceito. Melhor idade é aquela em que você está bem.

Fui verificar as possíveis vantagens do idoso. Tenho que resumir ou publicá-las por capítulos - vou citar algumas dessas vantagens.

O idoso não paga transporte coletivo, quando o motorista de ônibus atende o seu pedido de parar. Não entra em fila de bancos e embarques em aeroportos; é chamado muitas vezes de: museu, história viva e vô. O prazo de validade do idoso tem que ser renovado anualmente - o que considero uma vantagem inegociável, por viver sempre com o combustível novo da iniciação. A vida é feita de ciclos: no início eles tem circunferências maiores, ao envelhecer estes ciclos são menores - o que é considerado outra grande vantagem do idoso.

Fecho um ciclo e imediatamente abro outro. Este ano ainda não findou e já fechei dois antigos e enormes ciclos. Nem senti as conseqüências destes fechamentos, pois outros ciclos já estavam se abrindo na minha vida. Nada parecido com o jogo de dama em praça pública, cadeira de balanço pelas calçadas, visitas para matar o tempo ou inúteis conversas sobre o passado.

Nada melhor para um idoso aparador de crianças, o privilégio de passar um final de semana entre cardiologistas, geriatras e gerontologistas.

É bom ter uma relação afetiva com esse pessoal, especialmente com o cardiologista, pois todos nós iremos morrer e no atestado de óbito constará como causa da morte – parada cardíaca.

Se o obstetra significa o médico do início da vida o cardiologista está muito condicionado ao final da existência. No meu caso tenho a sorte de ter um cardiologista no décimo primeiro andar do meu edifício e sou morador do vigésimo andar, bem pertinho do céu.

Envelhecer é o momento de colher tudo o que plantamos quando jovens. E digam-me se não é prazerosa a colheita?

Não preciso mesmo de tratamento psiquiátrico e sim de companheiros para compartilhar os frutos colhidos.

Envelhecer é bom.

Gabriel Novis Neves

16.11.2009.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ela tem razão

Uma famosa jornalista ficou impressionada ao visitar o Pronto Socorro de Cuiabá e classificou-o como campo de batalha. Não sei se a jornalista já tinha visitado o nosso Pronto Socorro ou outros por este mundo afora. É realmente impressionante o ambiente em um hospital de urgência e emergência. Ali as coisas nem sempre são como aparecem. Neste tipo de hospital não há possibilidade de planejamento.

Certa ocasião durante meu plantão no Pronto Socorro Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, saí de ambulância para prestar assistência aos passageiros de um avião da Varig que se acidentara ao pousar no aeroporto do Galeão. Era dezembro de 1959, e entre eles estava o famoso historiador Otávio Tarquínio de Sousa. Todos os passageiros morreram. Alguns ainda com vida, foram transportados. Nesta hora não se pergunta se há vagas no hospital. É caso de extrema emergência e o ambiente do hospital é o de guerra mesmo.

Quantas vezes já conduzi pacientes gravíssimos, acidentados em vias públicas diretamente para o centro cirúrgico, independente de vaga. Muitos estudantes de Medicina abandonam o curso quando enfrentam esta realidade. A jornalista tem toda a razão quando ao fazer uma matéria sobre o Pronto Socorro Municipal de Cuiabá, disse que aquilo era um campo de batalha. Concordo com ela, é um verdadeiro campo de batalha para os pacientes gravíssimos que estão ali amontoados, para os médicos, para todos os trabalhadores de saúde, para a sociedade e jornalistas que realizam o seu trabalho de informar.

A Medicina não entra na lógica do lucro e nunca foi sacerdócio. A Medicina é uma profissão diferenciada das outras, pois cuida de seres humanos fragilizados. Não, e nunca admitirei, mesmo em situações limites, as “patadas dos médicos” no atendimento aos seus pacientes e familiares. Estes profissionais que assim se comportam, não são médicos, talvez técnicos em doenças e não devem “plantar favas” que são leguminosas cujo fruto é uma vagem ou legume que não suportaria uma patada. Matar as leguminosas ou maltratar alguém com patadas, não é ensinamento de Hipócrates.

O desespero extremo dos médicos do Pronto Socorro Municipal é conseqüência das condições adversas de trabalho a eles oferecidas. Ao contrário do que muita gente pensa, o médico nestas situações é pouco útil aos seus pacientes. O médico participa do processo de cura quando competente e humano tem condições de trabalhar com dignidade em um cenário de solidariedade. No momento em que inexiste essa situação, continuar enganando a população é crime hediondo. O correto é parar, denunciar e propor soluções. Seria o médico um patife ao participar desta tragédia, com um silencio inaceitável, tradutor da falta de compromisso com a população e a ética. A finalidade principal da Medicina é a promoção da saúde e a sua prevenção, assim como cuidar das situações de urgências e emergências. Ter um filho médico foi um sonho da baixa e alta burguesia.

Hoje, os países do primeiro mundo importam estes profissionais (médicos) e terceirizam os seus serviços auxiliares, principalmente os de imagens, com os países emergentes. As faculdades de Medicina não irão nunca ensinar humanização aos seus alunos, podem até tentar. Esta disciplina é aprendida em casa. Quando o estudante procura a Universidade para se profissionalizar através da instrução, o seu caráter já está moldado com os valores adquiridos no meio em que viveu.

O caos da saúde pública no Brasil, Mato Grosso e Cuiabá é responsabilidade dos nossos políticos – que foram eleitos por nós – dos médicos e da sociedade produzindo sofrimento, especialmente na população mais pobre e necessitada.

A jornalista tem razão.

Gabriel Novis Neves
06-11-2009


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terça-feira, 17 de novembro de 2009

ACABOU !

Com a intervenção direta do Tribunal de Justiça do Estado, terminou o movimento dos médicos de Cuiabá por melhores condições de trabalho, dignidade e humanismo nas relações - paciente – médico - burocratas. Foram mais de sessenta dias de sofrimento para os médicos, e principalmente, para aqueles que não falam e que ninguém fala por eles.

Foi apenas uma etapa vencida. O mais difícil está por vir. Criou-se uma expectativa enorme na população, que com três milhões de reais teríamos a maior reforma da história do Pronto Socorro de Cuiabá, e que com outros três milhões adquiriríamos equipamentos tecnológicos de última geração.

Pura propaganda enganosa, e o mais importante nem foi lembrado: a qualificação e valorização dos trabalhadores da saúde. Alertei aos meus jovens colegas que o governo fará tudo para passar à população, que o que os médicos desejavam era só um aumento de oitocentos reais mensais no seu holerite. Isso já está sendo martelado a peso de ouro nos informes publicitários, oficiais e nas entrevistas dos burocratas. E a verdade não é essa. Nunca em cinqüenta anos de Medicina presenciei um movimento de médicos como o de agora. Garanto que não houve motivação política e sim despreparo dos burocratas para enfrentar este sério problema social.

O resultado foi a catástrofe que vivemos. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde criada pela Assembléia Legislativa é um instrumento, que bem trabalhado, contribuirá em muito para a melhoria da Saúde Pública, não só de Cuiabá como de todo o Estado. Ficará para a história da Medicina o relatório final dessa Comissão. Acredito no compromisso dos membros da CPI com a população deste Estado. Ela tem tudo para mostrar o “Santo” como ele é.

Um jovem hoje só procura ser médico para tornar-se agente de mudança social. Medicina não é mais um curso de status ou de remuneração diferenciada. O médico moderno participa da realidade em que vive, e está em todos os grotões com a população nos seus momentos mais difíceis. Um trabalho coordenado e organizado dessas “formiguinhas” pode alterar este cenário de desumanização.

Acabou o movimento. Mas o trabalho do médico continua, em busca de novas conquistas sociais.

Gabriel Novis Neves
16/11/2009

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Até quando?

Oficialmente há sessenta dias estamos sem os serviços públicos de urgência e emergência. Inaceitável em uma capital de Estado rico e pólo de atendimento de um milhão de pessoas. E nada de objetivo se faz para resolver esta calamitosa e desumana situação. O salário humilhante de oitocentos reais pago aos médicos já chegou a mil e oitocentos reais por mês. Mas as condições mínimas para o exercício digno da medicina não existem.

A reforma física do nosso Pronto-Socorro ficará em torno de três milhões de reais. Só com a demolição do Verdão o Governo estadual gastará oitenta milhões de reais, segundo notícias da mídia. Para equipar o novo Pronto-Socorro estão estimados mais três milhões de reais. O projeto do novo estádio de futebol custou vinte milhões de reais ao tesouro público.

Dinheiro, o Governo está demonstrando que tem e de sobra. A pergunta que nos incomoda é: “porque não se trata os problemas da saúde como se trata os problemas do futebol?” Infelizmente tenho que acreditar que a saúde pública não é prioridade neste Estado.

A paciência da nossa pacata população está no limite. Se eu for destacar as tentativas governamentais para resolver este sério problema de saúde pública, mesmo a contra gosto entrarei na página do humor. Virou moda, nesta outrora briosa Cidade Verde, diante de um problema terceirizar o serviço. Já pertence à história o tempo do “morrer se possível” para se implantar uma civilização.

Houve uma tentativa de se entregar as obras do PAC ao Exército Brasileiro - que não aceitou. Com a crise da saúde, pensou-se em entregar ao judiciário a gerência dos problemas já que há muito as internações hospitalares e medicamentos aos pobres são funções da justiça. Com a ausência dos cirurgiões nos boxes do Pronto-Socorro, chamou-se uma empresa de saúde com nome de museu – MASP, do Rio Grande do Sul, totalmente desconhecida em Porto Alegre e conhecidíssima aqui.

A solução salvadora encontrada pelo Governo Estadual foi jogar o problema da urgência e emergência para o privado Hospital Geral Universitário (HGU). Outro hospital universitário do Governo Federal – Hospital Universitário Júlio Muller (HUJM), não aceitou a deferência governamental. O HGU nem pronto atendimento possui. O pronto socorro do HGU é o fechado e em crise, Pronto Socorro de Cuiabá.

Estou acreditando que o Governo Estadual gostou da idéia do MASP, e está criando o seu MASP em Cuiabá, que é o HGU. Não vai resolver o problema da população pobre. Na primeira semana da alternativa estadual, as estatísticas estão aí: desastre total. E o pior é a vaidade das autoridades em não admitir que erraram mais uma vez. Fizeram política partidária na saúde, e o resultado veio a galope.

Gabriel Novis Neves
04 de Novembro de 2009


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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

INSENSATEZ


Todas as vezes que ouço o nosso Prefeito anunciar a reforma “nunca antes jamais” realizada na história do Pronto Socorro de Cuiabá, lembro-me de alguns versos do poeta Vinícius de Moraes.

Sou um dos sócios-proprietários de um Hospital referência de Cuiabá e do Estado em sua especialidade. Foi construído há trinta anos.

Qualquer trabalhador hospitalar sabe que o arsenal tecnológico de um bom hospital tem em média uma vida útil de cinco anos. A área física do hospital tem a sua aceitabilidade de quinze anos. Após esse tempo estará totalmente ultrapassado.

O jeitinho nosso são os “puxadinhos”. Todos os hospitais de Cuiabá, sem exceção, estão vivendo com os seus “puxadinhos”. Além de caros deixam muito a desejar. No nosso estamos planejando um “puxadinho” para não morrermos de inanição tecnológica e o preço desta reforma está orçado em torno de doze milhões de reais. E não venham me dizer que esse valor é produto de corrupção!

No caso do Hospital e Pronto Socorro de Cuiabá o sensato seria construir um novo e, só depois reformar o antigo para ocupá-lo com pacientes. O prefeito está trocando seis por meia dúzia e comprando gato por lebre. O público recebe essas informações sobre a reforma e o valor de cinco milhões como propaganda enganosa. Não irá resolver absolutamente nada dos nossos problemas de saúde, e o pior é que cinco milhões de reais irão para o esgoto.

Médico não cura, participa do processo da cura. A grande função do médico é evitar e prevenir a doença. Esta reforma tem que ser evitada! A construção de um novo é dever do Governo Federal, Estadual, e Municipal. Todos os níveis de poder estão no mesmo barco.

Com a garantia do compromisso de recursos das nossas autoridades Federais, Estaduais e Municipais, em dezoito meses teremos o sonho transformado em realidade. O Sambódromo do Rio foi construído em quarenta e cinco dias e o Maracanã em dois anos.

Wilson Santos! Não faça a reforma no velho Pronto Socorro! Chame o Governo Federal e Estadual para a construção de um novo e garanta a solução dos nossos problemas pelos próximos quinze anos.

Termino com trechos do poema “Insensatez” do Vinícius:
“Ah, insensatez que você fez... fez chorar de dor...
Ah, porque você foi fraco assim... Ouve a razão... Usa só sinceridade...
Quem semeia vento, diz a razão, colhe sempre tempestade.
Pede perdão... Quem não pede perdão, não é nunca perdoado”.

Vamos construir um novo, Wilson?

Gabriel Novis Neves
01 de Outubro de 2009

A AUDIÊNCIA DA ASSEMBLÉIA


De um modo geral estas audiências públicas terminam, quase sempre, em blá-blá-blá... São longas e, no final das mesmas já esquecemos até o assunto da discussão.

Essa que participei na quinta feira, comandada pelo Deputado Percival Muniz - que não é de Cuiabá - com o Sindicato dos Médicos foi diferente. Existia um planejamento para que todos os presentes dessem a sua contribuição. Não falou quem não quis.

Começamos a reunião com o depoimento de um jovem colega de trinta e três anos. Emocionante! Com slides projetando imagens mais fortes do que as suas palavras, ele chegou a arrancar lágrimas de indignação da platéia, na maioria de médicos, tão acostumados com os confrontos com a morte!

Não sinto nenhum constrangimento de dizer que chorei. O colega que o sucedeu praticamente fechou o caixão do defunto que é a Saúde em Cuiabá. Relatou apenas a realidade. A triste realidade do dia a dia dos médicos do Pronto Socorro de Cuiabá.

Mais deprimente que os slides projetados, apenas as galerias vazias, pelo temor das represálias. Muitos colegas revoltados ficaram em seus trabalhos. Qualquer exposição seria fatal para o seu raquítico holerite.

O primeiro colega a falar na reunião, só pelo fato de encaminhar comunicação interna (C.I) solicitando providências para o bom atendimento de seu serviço, foi punido sem explicação pelo Alto Comando Autoritário da Saúde e perdeu o seu mensalinho. Hoje, o seu salário é de oitocentos reais por mês para quatro plantões de 24 horas semanais no único Pronto Socorro de Cuiabá e do Estado.

Os Prontos Socorros do interior são estações de triagem de pacientes. Eles vêem para Cuiabá naquelas ambulâncias que são distribuídas com festas e foguetórios na Avenida do CPA.

Todos os médicos presentes na audiência estão na lista negra para a perda do mensalinho. Produziram depoimentos de campo de concentração nazista. Uma das melhores médicas do Programa Saúde da Família (PSF) teve um problema de saúde. Com esse salário de Tegucigalpa, ela não possui um plano de saúde. Foi operada recentemente, com sucesso, pelos seus colegas do Pronto Socorro. Está curada. Durante a sua enfermidade, perdeu o seu mensalinho.

O pior é a utilização da mídia com informes publicitários caríssimos, mentindo e denegrindo a já fragilizada classe dos médicos. E quem paga isso somos nós, através dos impostos aviltantes. O Governo deixa de arrumar o RX do Pronto Socorro, de abastecer os Programas de Saúde da Família com medicamentos básicos, de melhorar as condições de trabalho dos médicos para iludir a população que não acredita nos tais informes, pois sentem o desleixo na própria carne.

É uma forma de atingir os formadores de opinião. A audiência não foi para resolver o que foi destruído pela incompetência acumulada dos nossos sábios e éticos gestores. A morte do Pronto Socorro foi anunciada para o dia primeiro de outubro.

A audiência parecia mais um preparo para o Funeral da Saúde. Os deputados estaduais cuiabanos, os vereadores de Cuiabá, com exceção do vereador médico, os secretários da saúde do Estado e do Município de Cuiabá não compareceram à discussão.

Foi necessário um deputado de Rondonópolis marcar esta audiência para, através de uma Comissão, chegar ao Senhor Governador e Prefeito e resolver esta desumanidade que é a crise da Saúde em Cuiabá e em Mato Grosso.

Rezemos para que de certo.

Gabriel Novis Neves
28.09.09

Antigos Instrumentos Cirúrgicos


Quem se queixa da broca do dentista ou do som agoniante que o aparelhinho faz, prepare-se para este post. Depois de ver as maravilhosas ferramentas que os rapazes e moças de jaleco utilizavam algum tempo atrás, você jamais temerá a insignificante broquinha. Imaginar como estes aparelhos eram utilizados e o sofrimento pelo qual passavam os tristes pacientes é chocante. As imagens não são fortes, mas imaginar como elas eram utilizadas é o problema. Agora lembre-se: Caso um dia você volte ao passado para alguma missão que salvará o mundo, torça para não precisar dos cuidados de um médico local.


Faca de Amputação (1800): Durante o século 18 eram tipicamente curvas, porque os cirurgiões tendiam a fazer um corte circular através da pele e músculos. Antes os ossos eram cortados com um serrote. Depois de 1800, facas retas se tornaram mais populares porque tornaram mais fácil deixar um retalho de pele que podiam ser utilizados para fechar o buraco.



Serra de Amputação (1600): A maioria dos cirurgiões se preocupava em decorar suas serras, mas não pensavam que os sulcos eram um lugar ideal para os germes construirem suas casinhas.



Tesoura Removedora (1500): Enquanto as tesouras abriam o caminho, o eixo central era inserido na ferida para captar o objetivo da operação.




Sanguessuga Artificial (1800): Sangria com sanguessugas era tão populares em tratamentos para uma série de condições médicas. Daí­ que a sanguessuga artificial foi inventada em 1840 e foi utilizada com frequência em cirurgias de olho e orelha. As lâminas rotativas cortavam uma ferida na pele do paciente, enquanto que o cilindro seria utilizado para produzir um vácuo que sugava o sangue.




Extrator de Balas(1500): Este instrumento poderia atingir balas profundamente alojadas no corpo do coitado do paciente. Extratores como este tinha um parafuso que podia ser inserido na ferida e alongado para perfurar a bala e assim pudesse ser puxada para fora.




Dilatador Cervical (1800): Era assim que dilatavam a bacia de uma mulher na hora do parto. Tudo medido na escala.




Faca de Circuncisão (1770): Realizada até hoje, a prática da circuncisão era feita com esse brinquedinho aí­ abaixo.
Segura peão.



Ecraseur (1870): Esta coisinha linda era usada para cortar hemorróidas e tumores do ovário ou do útero.




Fórceps para hemorróidas: Esses fórceps eram utilizados para captar uma hemorróida entre as lâminas e aplicar pressão para interromper o sangramento, provocando a dormência da hemorróida.



Hérnia Tool (1850): Esta ferramenta era utilizada após o restabelecimento de uma hérnia. Era inserido no corpo perto da área afetada e deixada lá por uma semana para produzir tecido cicatricial que poderia ajudar a fechar a hérnia.


Hirtz (1915): A bússola era usada para determinar com precisão onde estavam localizadas balas no corpo, para que pudessem depois serem removidas com precisão. Não pergunte como.


Hysterotome(1860): Utilizado para amputar o colo do útero durante uma histerectomia.



Lithotome (1740) Este lithotome era usado para cortar a bexiga a fim de remover pedras. O eixo continha uma lâmina escondida que era inserida na bexiga e, em seguida, liberada utilizando uma mola.





Boca Mordaça (1880): Conhece um parafuso? Conhece uma boca? Esta madeira, em forma de parafuso era inserido na boca do paciente anestesiado para manter as vias aéreas abertas.






Escarificador (1910): Escarificadores eram utilizados em derramamento de sangue. As lâminas de mola neste dispositivo cortavam a pele, e um copo de vidro arredondado poderia ser aplicado sobre a ferida. Quando aquecido, ele iria ajudar a tirar o sangue para fora em um ritmo mais rápido.





Skull Saw (1830): Esta serra da lâminas era utilizada para cortar seções através do crânio, permitindo o acesso de outros instrumentos.






Tobacco Smoke Enema (1750): O tabaco enema era utilizado para infundir o fumo do tabaco em um paciente do reto para diversos fins medicinais, principalmente a reanimação das ví­timas de afogamento. Um retal tubo inserido no ânus estava ligado a um fole que forçava a fumaça para o reto. O calor do fumo foi pensado para promover a respiração, mas muitos duvidam da eficácia.






Tonsila Guilhotina (1860s): Este método de remoção da amí­gdala trabalhou muito tradicional como uma guilhotina, cortando fora a infectada amí­gdalas. Esta dupla guilhotina possibilitaria que ambas as amí­gdalas poderiam ser removidas ao mesmo tempo. Esses instrumentos foram substituídos por pinças e bisturis no in­ício do século 20, devido a alta taxa de hemorragia e do caráter impreciso do dispositivo, que muitas vezes deixava remanescentes de amí­gdalas na boca.




Trefina (1800): Este instrumento era uma broca cilí­ndrica com uma serrinha que era utilizada para furar o crânio. A broca do centro era utilizado para iniciar o processo e manter alinhada enquanto a lâmina de corte agia.


Espéculo Vaginal (1600): O espéculo foi utilizado por milhares de anos para permitir aos médicos uma melhor visão e acesso à área vaginal (ou outras cavidades corporais), alargando depois da inserção.

Nome aos bois


Cuiabá durante séculos ficou isolada do resto do mundo. A notícia da Independência do Brasil chegou por aqui depois de três meses. Vivíamos quase no mundo da lua. Hoje, apesar da internet, televisão via satélite e outras modernas tecnologias de comunicação, comportamo-nos como naqueles velhos tempos.

A maioria da população adquiriu o hábito da desinformação. É a repetição da história do “o uso do cachimbo é que faz a boca torta”.

O político, o empresário e o professor principalmente, têm que colocar a informação como prioridade em sua vida, sob o risco de cair no ridículo.

Vejamos um caso concreto que atormenta Cuiabá neste momento: o caos da saúde.

Enquanto os nossos gestores defendem com unhas e dentes a excelência do Sistema Único de Saúde (SUS) lançando mísseis para defendê-lo, e produzindo vítimas, em Brasília o Presidente do Conselho Nacional de Saúde, em palestra na Universidade Nacional de Brasília (UnB), defende uma reforma geral no SUS. Segundo ele “o SUS enfrenta problemas que vão além da má gestão.” “...Nosso maior problema não é má gestão, mas sim, falta de financiamentos, condições de trabalho e confiança nas relações públicas e privadas”.

Continuando o Presidente do Conselho Nacional de Saúde afirma que, “do que realmente precisamos depende dos senhores Deputados e Senadores, que é a regulamentação da Emenda Constitucional 29, que disciplina recursos para o setor.”

Concluindo o Presidente do Conselho Nacional de Saúde nos alerta que: “estar ao lado do SUS não é defender a privatização e a terceirização da saúde. Isso não é modernização! A emergência é modernizar a nossa legislação, que sempre foi descumprida e nunca foi colocada em pauta”

Estas dificuldades, que atingem todo o SUS do Brasil produzindo uma crise generalizada, são completamente ignoradas pelas nossas autoridades locais. Como seria bom para a sociedade ouvir depoimentos sérios e sensatos! Todo o Brasil passa neste momento pelo caos na saúde, menos Cuiabá e Mato Grosso, na visão dos nossos governantes.

Aqui a falta de recursos é discutida na vara criminal, como se os médicos fossem Deputados ou Senadores. Estes, seguindo ordens superiores, estão há anos sentados em cima da Emenda Constitucional 29, que disciplina o abastecimento de recursos mínimos para a Saúde Pública a fim de que ela possa atender com dignidade a população pobre.

Aliás, durante esta crise da saúde em Mato Grosso, os nossos representantes em Brasília não abriram a boca. Na época das eleições, com toda certeza, irão encontrar a boca do povo sofredor dessa terra, fechada. Esquisito esta conduta dos nossos parlamentares né?

A resposta virá em breve, e a luta motivada pela falta de informações com o que se passa lá fora continua.

Sou médico em pleno exercício da profissão sofrendo com o sofrimento da minha gente e dos meus colegas, e tenho o desprendimento de expor as minhas idéias.

Chega de tapar o sol com a peneira, governantes de Mato Grosso! Esta conduta não é a de soldados modernos da justiça social. Ser moderno é ter compromisso social com a melhoria da qualidade de vida da população e não ameaçando pequenos servidores públicos na justiça.

O problema da saúde é tão sério que justificativas do tipo “estou cumprindo o meu dever de casa” e jogando a desgraça para os que não têm votos é uma deslealdade. Temos que encontrar uma saída para salvar a vida da população pobre!

Afinal, quem está com a razão? Os gestores do SUS ou o Presidente do Conselho Nacional de Saúde?

Os bois têm nomes! São os silenciosos de Brasília, que estão sentados na Emenda Constitucional 29 para cumprir ordens superiores.

Gabriel Novis Neves
16 de Setembro de 2009

Constrangimento



É possível ser a favor e contra ao mesmo tempo? Parece pegadinha ou pergunta de louco, mas não é. Nesta semana de crise intensa na saúde pública a população de Cuiabá e Mato Grosso foi surpreendida pelo tumor que veio a furo. Entendeu que em política o sim e o não são sinônimos. Nada mais constrangedor que perguntar ao Presidente da República, Governadores e Prefeitos se eles repassam para a saúde os recursos determinados pela Constituição. A resposta é tão confusa que mais parece uma conversa do Caetano ou Gil.

Muitos preferem o termo saia-justa. São obrigados a mentir - falando sério - mas logo o detector de mentiras acusa a fraude. Aí, vem o jogo de empurra-empurra dos culpados em não cumprir as leis sem serem punidos. As justificativas são geniais: “Da minha parte fiz a tarefa de casa”, e os outros que se danem. Geralmente este texto é o preferido dos Governadores.

A verdade, segundo o jornal “Folha de São Paulo” de 14/02/2009, é que dos 27 governadores, 16 aplicaram menos que os 12% dos recursos obrigatórios na saúde. O que fazem os espertos governadores para tentar iludir a opinião pública? Incluem nas contas da saúde: tratamento de esgoto, plano de saúde dos funcionários estaduais, aposentadorias dos servidores da saúde, alimentação de presidiários e programas sociais estilo Bolsa-Família. Com isso tiram o dinheiro destinado para a construção de hospitais, compra de medicamentos de alto custo e ampliação da rede básica.

Em termos de Brasil são milhões de reais desviados da saúde. No Congresso existe um projeto de lei que define o que é investimento em saúde. Há muitos anos está parado porque, tanto o Governo Federal como os Estaduais e Municipais são contra. Os deputados federais e senadores na sua imensa maioria dependem das migalhas de agrados desses níveis de poder para a carreira que escolheram: a política. A crise na saúde é generalizada. É uma peste nacional. Como o Governo Federal dá o exemplo de não cumprir a lei, os Governos Estaduais e Municipais fazem o mesmo. Quem sofre com isso é a nossa população pobre e a corda acaba sempre arrebentando do lado mais fraco.

A população de Mato Grosso está morrendo à míngua e a grande caixa de ressonância desta incompetência é a nossa capital. Vejo diariamente tragédias acontecendo por absoluta insensibilidade dos nossos governantes. A situação é gravíssima! Não tenho nenhuma informação de caravanas indo à Brasília lutar por mais recursos para a saúde. Caravanas saem daqui com políticos importantes comandando o bloco para pressionar o Banco do Brasil a perdoar dívidas dos nossos abonados agricultores.

No caso da saúde os políticos se comportam como Pôncio Pilatos. O povo está morrendo por falta de uma política de saúde com financiamento constitucional e os culpados sempre são os pequenos funcionários públicos que ganham salários de oitocentos reais por mês.

Vamos fazer psicanálise senhores políticos para a cura da doença da omissão! E acabar com o delírio de perseguição projetado em quem não tem culpa. Não é possível não, ser a favor e contra ao mesmo tempo, tá? Libertem-se do constrangimento, falem a verdade ao povo e eles entenderão!


Gabriel Novis Neves
Cuiabá, 20/09/2009

Mafiosos e preguiçosos


Das leis inúteis, a do “menor esforço” e a do “Gerson”, são as mais eficientes. Ambas são utilizadas quando o fracasso aparece. Todas as vezes que fica visível a incompetência, a providência inicial é encontrar um culpado. Não pode ser escolhido qualquer um. De preferência frutos de árvores saudáveis apreciados pela população.

No caso da péssima saúde pública oferecida pelo governo procura-se sempre jogar pedras nos médicos. Isto já virou tradição, pois não é de hoje que a saúde no Brasil vai mal. Quando o insucesso é federal, o problema é de gestão, pois os recursos para a saúde são abundantes. Tanto é verdade que estão reinventando aquele imposto do cheque (CPMF).

Se o fracasso é estadual, os médicos são os mafiosos de branco colocando em risco a virgindade dos demais integrantes do governo ético, moderno e transparente. Na rede municipal, os médicos são os responsáveis pelo caos, porque não gostam de trabalhar e são preguiçosos. Se os médicos gostassem do trabalho, o problema da saúde estaria resolvido, afirma o Presidente das Organizações Tabajara.

Nos Estados Unidos da América do Norte, a saúde pública vai mal. Os custos operacionais de uma boa medicina são elevados e não porque os médicos são péssimos gestores, mafiosos ou preguiçosos. Medicina de qualidade exige investimentos, especialmente em recursos humanos, área em que o governo tem pavor de ouvir. Adoram inaugurar obras públicas de saúde inacabadas e com placas comemorativas. É a saúde pública das placas. Por aqui ninguém nunca pensou em um PAC da saúde.

Nos Estados Unidos, o Presidente da República assumiu a culpa pelo insucesso na saúde, e com a sua juventude e carisma, neste momento percorre o país pedindo ajuda da população para resolver o que ele considera o mais grave problema do seu governo. Os nossos governantes não conhecem o sofrimento que causa ao pobre, um sistema de saúde sucateado, pois jamais utilizaram dos seus serviços.

Obama declarou: “Se em quatro anos de mandato for resolvido o problema de saúde pública nos Estados Unidos que vêm desde a época de Abraham Lincoln, irei para casa com a consciência do dever cumprido e não disputarei a reeleição”.

Enquanto isso acontece no hemisfério norte, na terra das sanguessugas, todos os mentirosos incompetentes querem fazer da mentira, carreira política. Para isso se protegem, acham eles, jogando pedras em árvores saudáveis. Venho acompanhando pela imprensa, verdadeiras barbaridades dos únicos responsáveis pelo caos na saúde contra a classe médica sem exceção. A tentativa de tentar denegrir a imagem dos médicos é impressionante. Não se salva nenhum médico. Se alguém for médico as autoridades logo rotulam de mercenários.

Diferente do político que é aquele que nunca sabe de nada. Eis a grande diferença. Como seria bom para a sociedade se essas autoridades transitórias viessem a público e dissessem a verdade sobre os problemas da saúde. Agora, partir para estraçalhar a dignidade de todos os médicos com ameaças de assédio moral é imoral. A discussão tem que ser das condições de trabalho oferecidas pelo governo aos médicos, e claro que o problema passa obrigatoriamente pelo bolso dos trabalhadores de saúde. Se os médicos fossem preguiçosos ou não gostassem de trabalhar, com o salário indigno que recebem, todo o serviço de saúde pública estaria fechado.

Vamos à realidade: saúde é direito de todos e dever do estado. Está na Constituição Brasileira. Vamos resolver logo esta epidemia, que é pior do que a gripe suína, com a participação da sociedade que não agüenta mais sofrer. Façamos o desarmamento das vaidades e dos interesses políticos imediatos e vamos cuidar de salvar a vida dos pobres. Os médicos trabalham muito, por pouco.

Os gestores públicos, estes sim, na sua maioria têm pavor ao trabalho sem retorno político imediato e muitas vezes são totalmente despreparados para exercerem a função de Hipócrates.
Gabriel Novis Neves
12-09-2009

ESTAGIÁRIO DO PRONTO SOCORRO



Também fui estagiário do Pronto Socorro. Calma pessoal! Este fato aconteceu em 1958 no Pronto Socorro do Hospital Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, onde estudava medicina.

Antes do quinto ano de medicina o aluno poderia ser voluntário no hospital. Após terminar o quarto ano, enfrentava um difícil exame de seleção, onde muitos eram excluídos. Os aprovados eram nomeados, e tinham o seu nome publicado no Diário Oficial do Estado, enquadrados como acadêmicos de Medicina.

Além de ajudar no serviço de atendimento – urgência e emergência, aprendi muito e o melhor, tinha uma excelente remuneração. O único equipamento que levava para o pronto socorro era o uniforme. O hospital fornecia refeições e materiais para o trabalho.

O estudante de medicina era valorizado pelo poder público. Os tempos mudaram. O estágio, tão importante na formação do médico, é agora praticamente punido pelo poder público, o mesmo poder que irá depois aproveitar esse médico sem estágio, e contratar empresas especializadas para o seu treinamento.

Geralmente essas empresas pertencem à gente famosa, super qualificada e com muito bom relacionamento no poder. E o preço desses cursos é caríssimo, mas o sistema funciona assim e cada qual entende como quiser.

Implantei dois cursos de medicina em Cuiabá. O primeiro, na onda da novidade, tinha portões hospitalares não tão fortes para serem abertos aos alunos. Agora que esta escola é orgulho de Cuiabá, pois foi escolhida como a melhor em graduação do Brasil, a situação de dificuldade é bem alta.

A outra escola de medicina que implantei, é privada. Foi uma dureza conseguir estágio em hospitais de Cuiabá. Primeiro pela escassez física da rede pública que atende aos pobres. Segundo, não sei por quê.

Chegamos a ter alunos do último ano de medicina impossibilitados de continuar os seus estágios em Cuiabá, e fomos procurar socorro em Várzea Grande.

A luta continua, e desta vez parece que houve uma radicalização. Sou o responsável em contratar o médico da unidade de saúde para monitorar os alunos estagiários.

O aluno tem que aprender também como é o atendimento na rede pública do Estado. Não vejo nenhum ato ilícito nesta proposta que não é secreta. Como o salário do médico é tão indecente, às vezes esta atividade acadêmica o motiva a não abandonar o emprego.

É importante para a sociedade produzir bons médicos. Estagiário é investimento social. Sem educação em serviço não chegaremos a lugar algum. Todos os setores da sociedade estão disponíveis a este projeto.

Será que o nosso Professor-Prefeito não quer perceber este fato?

O que adianta oferecer cursinho pré-vestibular sem ônus, pagar bolsas a universitários e negar-lhe estágio?

Coisas de Cuiabá!

Gabriel Novis Neves
26 de Agosto de 2009

Organizações Tabajara


Foi com satisfação que li uma entrevista de importante autoridade de saúde de Cuiabá. Relata que a corrupção na cidade está banida. O herói que roubou o trabalho do Dr. Julier descobriu, através de dados das Organizações Tabajara, a existência de médicos e enfermeiros que monitoram alunos em plantões.

Dez médicos e nove enfermeiros são os responsáveis pelo desvio da ética na cidade. Diz ainda, o não médico, que este tipo de trabalho está afetando a qualidade do atendimento à população.

Conforme o Estatuto dos Servidores Públicos, uma pessoa não pode trabalhar em um lugar e receber também um salário de outra fonte. Isto significa trabalhar em dois lugares diferentes ao mesmo tempo. É permitido: não trabalhar e receber integralmente o salário no final do mês, como também trabalhar ao mesmo tempo em Cuiabá e no Amazonas por exemplo. Ou exercer a mesma função e ter salários diferentes. Só não é permitido trabalhar no mesmo lugar, atendendo pacientes e monitorando os futuros médicos e enfermeiros em plantões da Prefeitura, recebendo por esta ação pequeno incentivo financeiro das Universidades.

Esquece o ilustre caçador de bandidos que todos os médicos da Prefeitura ganham um salário tão irrisório – cerca de oitocentos reais por mês, que para manter o serviço funcionando, a Secretaria de Saúde do Estado faz repasses financeiros mensais para o médico trabalhar no mesmo local, no mesmo período recebendo, portanto por duas fontes. O dia que o Governo do Estado retirar este incentivo, Cuiabá ficará sem médicos.

Para os que não conhecem como é feita a gestão da saúde pública, este repasse que os médicos recebem tem o sugestivo nome de “mensalinho”.

O mensalinho não faz parte da aposentadoria, e o dia em que o profissional de saúde não puder trabalhar por doença ou outro motivo justificável, ele perde esta gratificação.

Tenho um colega que já possui tempo e idade para se aposentar. Está com grave doença na próstata. Perguntei-lhe porque não se aposentava. Ele me respondeu dizendo que perderia o mensalinho, isto é, a bonificação que o Estado repassa para melhorar o salário do médico. Abatido pergunta-me: “- Como irei viver com oitocentos reais de aposentadoria depois de trinta e cinco anos de serviço público?”

Inúmeros contemporâneos meus sem condições de trabalho, Deus sabe como, comparecem aos postos de saúde pela segunda remuneração. Esquecidos pelas autoridades de saúde e políticos aguardam a morte física com a sua presença nesses locais. Mas o grande problema são os dez médicos e nove enfermeiros monitores descobertos pelas Organizações Tabajara. Os problemas da saúde desapareceram com esta descoberta.

Não sei por que estou me lembrando da história do meio: meio vigarista, meio ladrão, meio bandido, meio corrupto, meio pai, meio virgem, meio mentiroso, meio funcionário, meio justo e tantos outros meios. O vigilante da moral educacional deve procurar na lixeira onde se encontra a saúde pública em Mato-Grosso e Cuiabá para entender como funciona este serviço.

Receber por duas fontes para quem trabalha como médico ou enfermeiro assistente e professor, é crime. O ensino moderno na prática tem que ser realizado em serviço, especialmente na saúde, e nunca prejudicou a qualidade do trabalho oferecido. Pelo contrário, o que prejudica a qualidade é a falta de competência do gestor, o péssimo uso do recurso público e os salários miseráveis num regime ditatorial.

Segundo o denunciante, há irregularidades. O caminho é o Ministério Público para exigir que a Lei seja cumprida e não conviver com o ilícito até 31 de Janeiro de 2010.

Não existe meia lei. Ou é certo ou não. Belo exemplo de ética aos jovens universitários, funcionários e moradores desta meia cidade! Os problemas da Prefeitura na Saúde acabaram, garantem as Organizações Tabajara. Vamos continuar com a meia consulta e o mensalinho.

Meu querido Prefeito, o mensalinho acabou com a dignidade dos médicos e com a qualidade dos serviços por eles oferecidos. Pense em corrigir isto enquanto há tempo!
Seu vitalício eleitor cheio de dúvidas.

Gabriel Novis Neves
26 de Agosto de 2010

Câncer de pele


Há muitos anos a comunidade científica mundial trabalha para produzir uma vacina ou medicamento contra o câncer.

Infelizmente ainda estamos distantes deste momento. O homem já conquistou a lua, países desenvolvidos como o Iraque desapareceram do mapa, as torres gêmeas não enfeitam mais Nova York, porém o câncer continua matando. A primeira causa de morte em crianças no mundo é o câncer infantil. Não existe ainda cura para esta doença. Às vezes prolongamento da vida.

Todo o Brasil acompanha emocionado a luta de doze anos do nosso vice-presidente. Parece-me que a medicina mais uma vez sairá derrotada neste confronto. Passei por esta situação e sei muito bem, como médico e marido, o que é o significado de uma célula não amiga fora da sua casa. Ela se aloja em regiões distantes e um dia resolve crescer. Aí é o fim.

Pois bem, aqui em Mato Grosso a Secretaria de Saúde do Estado, para denegrir ainda mais a imagem do médico, faz graça com o filtro solar importado que protege da morte os nossos homens e mulheres que no campo produzem riquezas (Jornal A Gazeta de 17 de julho de 2009-“Indústria Das Liminares”).

Mato Grosso foi construído por negros, mulatos, mestiços e índios. Depois que se viabilizou como Estado rico, com infra-estrutura educacional (UFMT), começamos a receber irmãos de todo o Brasil. Muitos vieram do sul maravilha: os famosos brancos de olhos azuis e sobrenomes europeus. Foram trabalhar na agricultura plantando especialmente soja. Os médicos passaram a prescrever para esses trabalhadores o mesmo protetor ou filtro solar que receitavam para os seus patrões e esposas.

O ilustre ex-Secretário de Administração de Sapezal é contra o uso de protetores importados para os trabalhadores rurais. O governo está gastando muito dinheiro com este filtro adquirido através de liminares. Para os patrões não há necessidade de liminares. É difícil acreditar que o órgão responsável pela saúde pública em nosso Estado seja a favor da não prevenção do câncer de pele. Até que ponto chegamos! Não há nem ao menos pudor com uma doença que mata e deixa muito sofrimento e tem que ser evitada. Para mim não será novidade se a Secretaria de Saúde comprar cigarros para distribuir nos seus postos de saúde.

Com este tipo de comportamento em pouco tempo o Estado ficará livre dos pacientes de alto custo e com este dinheiro construirá o novo Verdão que será Azulão. Tenham piedade dos nossos agricultores, trabalhadores rurais de cor branca e sobrenome europeu que operam em máquinas caríssimas e importadas! Eles não merecem morrer de câncer de pele.

Gabriel Novis Neves
20-07-2009

Acorda Mato Grosso!


São seis horas da manhã. Passo em frente ao Hospital de Olhos. Um enorme ônibus, destes em que o passageiro se aloja no segundo andar e é utilizado em viagens de longo percurso, encontra-se ali parado.

Na calçada inúmeras pessoas. Todas idosas, humildes, com ares de cansaço e sofrimento, carregando seus travesseiros, cobertores e outros pertences nas mãos. Aguardam o hospital privado iniciar o atendimento. Sendo um hospital dia, a noite fecha suas portas, geralmente, por volta das vinte e uma horas, após liberar os seus pacientes.

Observo a chegada de uma médica identificada pelo seu uniforme hipocratiano. É o símbolo de esperança para aquela gente silenciosa.

Prossigo na minha caminhada. Retorno pelo mesmo trajeto. A calçada do hospital está vazia. Todos os pacientes viajantes encontravam-se no interior do hospital.

Telefonei ao dono do hospital sobre a rotina daquela cena, antigamente com ambulâncias como meio de transporte e agora ônibus. Ele me informou que naquele dia foram realizadas, com sucesso, quarenta e quatro cirurgias de catarata. Continuou afirmando que a demanda reprimida no interior é enorme e que logo irei me acostumar com os ônibus.

Em Cuiabá a fila para cirurgia de catarata também é longa. Seria uma cena rotineira não fosse o atendimento em hospital privado.

O SUS não funciona em Mato Grosso? Fomos excluídos? Simplesmente não possuímos hospitais públicos. Esta pergunta precisa ser respondida pelas nossas autoridades.

Todos sabem que não funciona nada que é do governo. Ignoram, porém, o motivo. Ambulâncias não estão mais resolvendo o transporte de pacientes para Cuiabá, são utilizados agora ônibus, também privados.

Precisamos de ferrovias e estradas excelentes, “para melhorar a saúde da população do interior do Estado”. A que ponto chegamos! Os velhinhos e velhinhas com catarata, com quinze minutos de cirurgia, recuperam a visão e a dignidade. À noite estarão em suas casas levando de Cuiabá o que lhes faltava: solidariedade
No dia seguinte o ônibus voltará trazendo outros pacientes. Talvez para diálise renal. E assim vai passando o tempo, permanecendo a falta de humanidade para com esta gente.

Não há vontade política para minorar este sofrimento. Corações de mármore! Não deixem Cuiabá continuar a ser estacionamento de ambulâncias e ônibus de pacientes pobres! Façamos alguma coisa por essa gente que tanto nos ajudou a ser o estado campeão da produção de alimentos!

Eles não merecem o título de viverem no Estado campeão da falta de esperança.

Gabriel Novis Neves
17.06.
09

Alienação Total



A alienação nos tempos atuais não é esse bicho tão feio que nos pintam. Penso que até faz bem à saúde, especialmente a mental. A irracionalidade ocupou todos os pontos estratégicos dos caminhos para uma vida melhor. Perdemos os fundamentos básicos do bom senso. Há poucos dias as autoridades de saúde pública de Cuiabá, em ampla matéria divulgada e re-divulgada pela imprensa escrita, falada e televisada, diziam que a cota de exames para mamografias realizadas pelo SUS aqui na nossa cidade só é utilizada em 30%. A ociosidade chega, portanto a incríveis 70%. Chamam à atenção da população para a importância deste exame preventivo para combater o câncer da mama e alertam que o Ministério da Saúde baixou a idade das mulheres para o exame salvador, que era de cinqüenta anos, para quarenta.

Lendo os jornais tomei conhecimento de uma campanha para a compra de um aparelho de mamografia para o Hospital do Câncer.

Se temos uma grande ociosidade na utilização desse equipamento que na rede pública é de última geração, em condições normais de saúde mental não seria o caso de utilizar o excelente mamógrafo existente no SUS e, com os recursos da campanha adquirirem outros equipamentos inexistentes? São situações tão fáceis de serem equacionadas que só a alienação nos faz cometer erros tão graves como este.

Melhorar a qualificação dos dedicados funcionários do hospital com treinamento contínuo, remuneração mais digna e oferecer melhores condições de trabalho aos seus médicos é uma conquista científica na luta contra esta doença, mais importante que a aquisição de mais uma máquina que ficará ociosa. Ou a máquina em um hospital especial, como é o Hospital do Câncer, é superior à dedicação dos seus profissionais?

O mundo hoje é dos alienados.

Gabriel Novis Neves
15-05-09

Perguntas Cretinas

Perguntas Cretinas

O telefone toca. Atendo.
“- É o seo Gabriel?”.
“- Sim.” Respondo.
“- Posso falar com ele?”
“- Por enquanto sim.”
“- É da seguradora do banco e gostaríamos de vender um seguro de vida para o senhor.”
“- Acho que você errou no endereço ou quer me passar um trote.” Retruquei.
“- Por que seo Gabriel?” Indaga a vendedora surpresa.
“- Com a idade que tenho vou querer fazer seguro da minha vida?”
A resposta foi monossilábica: “É.”
“- Você tem seguro de saúde com prêmio anual?” Indago.
“- Não, não trabalhamos com este produto. O senhor já recebeu alguma proposta neste sentido?”
“- Sim.” Respondo.
“- Como funciona?” Quis saber.
Explico: “- Pago uma taxa mensal e após um ano, se não morrer, recebo o valor em dobro.”
“- É uma pena seo Gabriel. Nós nunca pensamos em premiar a vida e sim a morte.”
“- E o que vou fazer com prêmios depois da morte?”
“- O senhor é casado?”
“- Não. Viúvo.”
“- Tem filhos? Ela pergunta.
“- Sim.” Respondo
“- Então o senhor deixa o prêmio para eles.”
Pacientemente respondo:
“- Minha filha, eles são todos independentes e não gostariam de receber um prêmio em troca da minha vida. Além do mais tenho netas e neto sendo que duas ainda não fizeram quinze anos e quero estar vivo para dançar a valsa. O meu netinho quer ser jogador de futebol famoso. Não posso morrer. Quero vê-lo na seleção e jogando num timão da Europa.”
“- Mas seo Gabriel – insiste ela – pense na possibilidade também de uma morte não programada. Este prêmio será bem vindo à sua família.”
Perguntei se a conversinha iria continuar.
“- Quer dizer que o senhor não gosta mesmo de seus filhos?” Ela insistiu, outra vez.
“- Adoro todos eles. O que não quero é comprar de você a minha morte.”
“- Obrigada senhor Gabriel, bom dia.”
E finalmente o telefone é desligado.
Fiquei sabendo que em alguns estados está proibido este tipo de chateação. Eu não agüento mais atender telefone para dizer não a empresa que todo dia quer trocar o filtro do meu aparelho de água. Como diversão e pesquisa do comportamento humano esta não é uma situação desprezível.
O ridículo é interessante.

Gabriel Novis Neves
22-05-09